Avante Bancário

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Visando privatização, Eletrobras pagou R$ 1,8 mi para manchar própria imagem

Estratégias de comunicação da Eletrobras visavam conquistar apoio à privatização. Marcelo Camargo/Agência Brasil
A Eletrobras gastou R$ 1,8 milhão em estratégias de mobilização da opinião pública para conquistar apoio para a privatização da empresa. Em 27 de setembro de 2017, a estatal contratou a RP Brasil Comunicações, do grupo FSB Comunicação, maior assessoria de imprensa do país.
A ideia era traçar estratégias de divulgação de informações que mostrassem 1 cenário de problemas e mazelas da própria estatal.
Apesar da assinatura em 27 de setembro, o contrato com a RP Brasil Comunicações só foi publicado no Diário Oficial da União quase 1 mês depois, em 17 de outubro.
A informação foi divulgada nesta 3ª feira (24.abr.2018) pela Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo, que conseguiu acesso ao contrato via Lei de Acesso à Informação.
No objeto do contrato consta que o serviço prestado pela empresa de comunicação seria o de “assessorar a Eletrobras na comunicação relativa ao projeto de acionista majoritário de desestatização da empresa”.
O valor de R$ 1,8 milhão foi dividido entre R$ 1,574 milhão para elaboração e execução do objeto, dividido ainda em vários itens, e R$ 226 mil para despesas comprovadas com a execução. Leia abaixo:
Os serviços da RP Brasil Comunicações se concentraram em divulgar notas para pautar a mídia, fundamentar opiniões de comentaristas econômicos e formadores de opinião pública. A ideia era reforçar a urgência da privatização, prioridade do governo do presidente Michel Temer.
Entre os serviços, somente a mobilização de influenciadores custou à empresa R$ 170 mil. Também há uma sondagem da opinião pública a respeito da desestatização com o custo de R$ 120 mil. Os resultados da pesquisa não foram divulgados, mas foram utilizados para orientar a empresa e subsidiar as estratégias.
No contrato ainda foi estabelecido que os pagamentos só seriam feitos após a “entrega dos relatórios mensais elaborados pela contratada correspondentes à consolidação dos resultados alcançados”.
A estatal negou a tentativa de manchar a própria imagem e afirma que no contrato está ressaltada a necessidade de se “preservar a imagem positiva da empresa”. No entanto, afirmou que reconhece os dados negativos como prejuízos financeiros ou dívida bruta superior a R$ 45 bilhões.

Contratação sem licitação

A Eletrobras fez uma “tomada de preços” com outras duas empresas para verificar o patamar do preço final e fazer a licitação do contrato do serviço. Além da RP Brasil Comunicações, apresentaram orçamentos a CDN (Companhia de Notícias) e a Informe Comunicação.
Por fim, a RP ficou em 2º lugar em menor custo financeiro, atrás da Informe Comunicação. No entanto, a Eletrobras, resolveu escolher a vencedora pela lei de “inexigibilidade de licitação”. Dispensou a concorrência e promoveu uma contratação direta.
A inexigibilidade concede o direito ao contratante de escolha do fornecedor caso existam razões que justifiquem a dispensa de licitação. A Eletrobras afirmou que houve a necessidade do contrato se dar por meio da inexigibilidade “em face da sua complexidade e singularidade, bem como confidencialidade, por envolver informações estratégicas da empresa”.
Fonte:

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Capitalismo: um sistema mórbido


O capitalismo é um sistema moribundo que insiste em sobreviver. Para tanto, emprega as mais nefastas ações como genocídios, assassinatos, roubos, golpes, mentiras, destruição do meio ambiente.

O imperialismo – a fase superior do capitalismo, como definiu Lênin – produziu as maiores mortandades da história. Assim foram com a Comuna de Paris, a Primeira e a Segunda guerras mundiais, as bombas atômicas no Japão, os bombardeios na Coreia do Norte e no Vietnã, os massacres na África, a criação de Israel no meio da Palestina, a Arábia Saudita, as ditaduras na América do Sul e Central, na África, a ‘Primavera Árabe’, entre tantas outras.

Os golpes políticos e as interferências nos processos eleitorais de um número sem conta de países superam qualquer teoria da conspiração – expressão criada pela CIA para descaracterizar as denúncias sobre sua nefasta ingerência.  Na América, na África, na Ásia, na Europa e na Oceania, ou seja, nos cinco continentes, a mão do imperialismo se fez e se faz presente, sempre em detrimento dos povos e da democracia.

As consequências são dramáticas: cerca de um bilhão de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza – isso pelo estúpido conceito da ONU, que estabelece apenas cinco dólares por dia (cerca de R$ 16,50, menos de R$ 500,00 mensais) como suficientes para estar fora da pobreza. Centenas de milhões de crianças passando fome, outros tantos de desabrigados, ainda outros na mais extrema miséria, inclusive nos EUA, principal país imperialista.

O capital cumpriu seu papel na primeira e na segunda revolução industrial no desenvolvimento da produção e superação do sistema feudal. Há mais de um século, entretanto, está totalmente superado, representando um entrave ao desenvolvimento da humanidade. Sua contradição intrínseca de baixos salários e manutenção de um exército de mão de obra de reserva (o desemprego) em contradição com sua necessidade crescente de lucro já deu o que tinha que dar. Não há mais espaço para tal ambiguidade, que cria uma desigualdade socioeconômica sem par e coloca em risco a própria sobrevivência da humanidade e do planeta como o conhecemos.

A crise atual que aflige a maior parte dos países em nível mundial decorre da falência desse sistema, manipulado por algumas famílias/corporações que sobrepõem o lucro e o poder decorrente a todo e qualquer parâmetro humanitário.

Até mesmo o desenvolvimento tecnológico está limitado pela sanha de maximização do lucro. Os avanços na medicina, no equacionamento da escassez de água, no saneamento básico, na produção e distribuição de alimentos, na geração de energia e tantos outros temas essências para a vida são pífios. A prioridade do capital é o desenvolvimento de novas tecnologias que lhe assegurem lucros crescentes, a maximização da mais valia, a produção de armamentos, comunicações de massa (para iludir os povos e sustentar seu poder), exploração predatória do meio ambiente etc.

Nunca a humanidade esteve tão ameaçada. A possibilidade de guerra na disputa interimperialista é real e cresce a cada dia. Nem no auge da guerra fria EUA e Rússia detiveram tantas armas nucleares quanto agora, além de outros países, como a China, o Paquistão, a Grã-bretanha, a França, a Coréia do Norte, Israel. Setores do imperialismo estadunidense, maioria no círculo de poder em torno da Casa Branca, clamam pela guerra diante da decadência de seu país, tanto política quanto econômica e social. Os recentes bombardeios na Síria são clara demonstração disso.

Ao mesmo tempo, o meio ambiente segue sendo sistematicamente agredido, seja através do uso de combustíveis fósseis não renováveis, da poluição industrial e do agronegócio, da proliferação dos agrotóxicos, do aquecimento global, do aprisionamento e contaminação das águas, do desmatamento desenfreado. A natureza chora mas o capital segue em sua sanha destrutiva.

A revolucionária Rosa Luxemburgo anteviu a contradição que vivemos há algum tempo: “socialismo ou barbárie”. Infelizmente estamos vivendo a barbárie, mas com um novo paradigma, um sério agravante: socialismo ou o fim da vida. Nem a humanidade nem o meio ambiente suportam por muito tempo um pútrido sistema moribundo que teima em sobreviver mesmo estando superado.

A reação dos povos em nível mundial contra esse status quo vem crescendo, porém ainda é insuficiente para tomar seu lugar na história e ganhar o protagonismo. É o desafio que enfrentamos sob pena de extinção,

Afonso Costa
Jornalista

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Água é direito universal, não é do capital


por Eduardo Grandi [*]
Nos dias 18 a 23 de março realizou-se em Brasília o chamado Fórum Mundial da Água (FMA), que, contando com o patrocínio do governo ilegítimo e de transnacionais como BRK, Ambev, Nestlé, Coca-Cola e Aegea, recebeu ampla visibilidade da mídia capitalista. O FMA tratou-se de um evento exclusivista, com ingresso de R$ 1 mil para participação dos debates, verdadeiro "fórum das corporações" que, por trás dos discursos tecnicistas e de preocupação ambiental, veio ao Brasil para vender a ideia liberal de que o Estado "fracassou" na gestão da água e que, para ser usada racionalmente, a água deveria ser privatizada e mercantilizada.

Por trás de tal discurso existe o contexto de crise global do capitalismo, que obriga o capital a encontrar novos espaços para despejar capitais excedentes e extrair mais-valia, bem como buscar discursos que legitimem tal prática. E as águas brasileiras são um dos alvos prioritários desse avanço. Pois o setor de saneamento nacional ainda é majoritariamente público (atualmente, apenas 6% dos municípios possuem tratamento de água e esgoto em mãos privadas), setor que emprega diretamente mais de 200 mil trabalhadores (enorme massa pronta para produzir mais-valia ao capital) e acumula insuficiências (notadamente, as perdas de água e a baixa cobertura dos serviços de esgoto) exploradas pelos privatistas e representantes do capital com o discurso das crises fiscal e hídrica.

É importante frisar que o Brasil detém sozinho 12% das reservas de água potável do mundo, possui reservas subterrâneas capazes de abastecer o mundo todo por mais de 300 anos e que, além disso, possui condições únicas para desenvolver toda uma cadeia produtiva em torno da água (terras férteis, sol, minérios, mão de obra). Tudo isso faz com que, atualmente, a conquista das águas do Brasil seja central para o grande capital transnacional, que encontra no FMA o espaço ideal para articular a transformação da água em mercadoria.

Com o objetivo de preparar a resistência à privatização e mercantilização da água, movimentos sociais, sindicatos e entidades da cidade e do campo promoveram em Brasília, entre os dias 17 a 22 de março, o Fórum Alternativo Mundial da Água ( FAMA ), evento que, sem qualquer apoio do governo federal e enfrentando a censura da mídia privada, reuniu cerca de 7.000 participantes de mais de trinta países para o debate e a organização da atuação conjunta em defesa do direito dos povos ao acesso à água.

Momento enriquecedor de troca de experiências, de solidariedade internacionalista e de encontro de diversas culturas e visões sobre o papel da água na sociedade, o FAMA proporcionou diversas lições importantes:

A primeira delas diz respeito ao que significa a crise hídrica vivida em diversos Estados brasileiros. Esta é parte provocada pela depredação capitalista de rios e nascentes, parte "fabricada" deliberadamente pela falta de investimento público, na lógica de se "criar dificuldades para se vender facilidades", ainda que a "facilidade" em questão seja um bem essencial à vida. O Estado brasileiro é um Estado capitalista, e como tal sempre buscará beneficiar o capital privado, nem que para isso tenha de "sabotar" a si mesmo através do sucateamento, da má-gestão, da falta de investimentos, da terceirização ou das "parcerias" público-privadas. Isso explica por que governos democrático-populares como os de Agnelo Queiroz (DF) e Wellington Dias (PI), ambos do PT, se empenharam na precarização e até privatização do saneamento. Daí se percebe que não basta lutar pela (re)estatização da água; é preciso, também, lutar por uma estatização com amplo, eficaz e transparente controle social pelo povo trabalhador, única forma de garantir que a água seja não apenas pública, mas também seja um direito e não uma mercadoria.

Em segundo lugar, destrói-se o mito de que a água é um recurso renovável. Menos de 3% da água do mundo é potável, sendo que quase 70% desta água se encontra congelada nas calotas polares; do que resta, 96% se encontra não acima, mas abaixo da superfície: são as águas subterrâneas e os aquíferos, que já são responsáveis por mais de 60% do abastecimento doméstico no Brasil. O problema é que o processo de renovação das águas subterrâneas (chamado de recarga) por vezes ocorre muito lentamente, como no caso do Aquífero Guarani (um dos maiores do mundo, localizado em sua grande maioria no Brasil), que estima-se ter levado cem mil anos para ser formado. Isso, somado ao crescente desmatamento do solo e degradação das nascentes, faz com que a água potável seja atualmente tão "renovável" quanto o petróleo! Derruba-se, também, o mito de que o desperdício de água estaria no consumo doméstico e que, portanto, seria culpa do povo. Na verdade, mais de 70% da água do mundo é gasta na agricultura, mais de 20% na indústria e somente 8% no consumo humano direto – isso tudo para alimentar um modo de produção que desperdiça pelo menos um terço de toda a comida produzida no mundo e que induz ao consumismo desenfreado ao medir a "felicidade" pelo nível de consumo. Fica, assim, evidente o recorte de classe em torno da água: o capitalista explora quase toda a água de forma predatória, mas é o trabalhador quem "desperdiça" e tem de fazer racionamento!

Outra lição importante a se tirar do FAMA é que, quando se fala que a água será a causa das guerras do futuro, é preciso compreender que esse futuro já chegou. No Brasil e no mundo, o Estado capitalista move uma verdadeira guerra contra os povos (especialmente comunidades tradicionais como indígenas, quilombolas e pescadores) que buscam seu direito à água e sofrem com a destruição causada por grandes "empreendimentos" poluidores, bem como a repressão do Estado que prende, tortura e assassina lideranças sociais em todos os continentes. Casos emblemáticos são os do Chile (onde a escassez natural do recurso contrasta com a enorme exportação de água proporcionada pelo agronegócio, fruto da total privatização da água imposta pela ditadura Pinochet, que intensifica os conflitos e faz com que o país tenha as tarifas de água mais caras da América Latina), da Colômbia (nação açoitada por mineradoras poluentes, que possui o maior número de refugiados políticos do hemisfério ocidental e que, só este ano, já registrou o assassinato de uma centena de ativistas) e Palestina (cuja água é roubada pelo exército de ocupação israelense, que destrói estruturas de coleta e armazenagem de água dos palestinos e obrigam o povo palestino a comprar por preços exorbitantes a água que é deles mesmos).

Também no Brasil há muita repressão, mas também resistência: em Caetité (BA), onde a poluição dos mananciais trazida pela mineração de urânio (por sinal, movida por empresa pertencente ao Estado capitalista, a Indústrias Nucleares do Brasil) faz com que a população local tenha uma das maiores incidências de câncer do país; em Mariana (MG), onde mais de dois anos após o rompimento de barragem da mineradora privada Samarco/Vale ter provocado um desastre ambiental que vitimou e desalojou centenas de pessoas, a maioria das vítimas ainda não receberam qualquer reparação; no Pará, onde a mineração de bauxita da corporação norueguesa Hydro polui rios e assassina militantes sociais; no sertão do Nordeste, onde a Transposição do Rio São Francisco, obra faraônica iniciada pelo governo Lula (PT), ameaça trazer danos irreversíveis ao Velho Chico e visa tão somente beneficiar o agronegócio, conforme apontado por entidades da região que denunciam a "indústria da seca" e defendem a convivência com o semiárido como solução social e ambientalmente sustentáveis para a seca; e no Brasil como um todo, onde os planos do governo ilegítimo de privatização da Eletrobrás ameaçam seriamente a condição de água como direito, uma vez que a matriz energética brasileira é essencialmente hidráulica.

Por outro lado, apesar do crescimento dos ataques, descobre-se que a luta muda sim a vida. Muda através da reestatização de mais de 250 sistemas de abastecimento na Europa e América Latina nos últimos quinze anos, demonstrando que a tendência de privatização apontada no Brasil vai na contramão do mundo. Muda com vitórias populares expressivas em referendos no Uruguai (2004), Itália (2011) e Tessalônica, na Grécia (2014) que barraram, ainda que temporariamente, a privatização da água nesses locais. Muda com a grande vitória da Guerra da Água do ano 2000 na Bolívia, que não somente reverteu a privatização da água em Cochabamba e em todo o país como também representou a largada para a ascensão do governo progressista de Evo Morales. Muda ao fazer recuar até mesmo aqueles que não se importam minimamente com a vontade popular: foi assim que a Medida Provisória preparada pelo governo Temer para destravar a privatização da Companhia Estadual de Saneamento do Rio de Janeiro (Cedae) e demais empresas públicas do Brasil fosse abandonada, ainda que o governo golpista prepare agora projeto de lei para "modernizar" o saneamento, ou seja, privatizar as companhias estaduais do setor e mercantilizar ainda mais as fontes de água. Estes são exemplos da grande lição proporcionada pelo FAMA: que a defesa da água enquanto direito universal, um dos mais importantes enfrentamentos deste século, está apenas começando; e que os povos podem vencer essa batalha com força e persistência, somente se souberem somar esta causa à luta pela superação do modo de produção capitalista.
24/Março/2018
Ver também:
A calúnia das alegadas "perdas de água" no abastecimento público

[*] Funcionário da Companhia de Saneamento de Santa Catarina (Casan) e militante do PCB.

sexta-feira, 30 de março de 2018

UNIDADE CLASSISTA APOIA COM RESSALVAS A CHAPA 3 – CHAPA DO PARTICIPANTE - PARA A FUNCEF

 
A partir de segunda-feira próxima 16/04, começam as eleições para a nossa Fundação de previdência, a FUNCEF. Nós, da Unidade Classista, entendemos que, das chapas concorrentes, a CHAPA 3 – Chapa do participante é a que reúne companheiros do sindicalismo na Empresa, têm uma visão crítica da atual gestão e defendem a cobrança sem trégua da dívida da Caixa com a FUNCEF pelo “contencioso” (que é o impacto na FUNCEF das condenações trabalhistas contra a Caixa que têm reflexos na FUNCEF). .
Para nós da Unidade Classista, a Chapa 1 (“Controle e resultado”) é apenas mais do mesmo, e representa a continuidade de uma gestão sem transparência e que vem se aliando à Direção da Caixa para descarregar todo o ônus dos desequilíbrios atuariais da FUNCEF no bolso dos empregados, além de ser assumidamente “impichista”- ou seja, “amiguinhos da Caixa” e do Usurpador Temer.


Já a chapa 2 tem uma visão tecnocrática dos problemas e da gestão da FUNCEF. A visão de “chapa de gestores”, além de estar propiciando cenas de *assédio moral disfarçado de campanha* (sabemos que em algumas SRs o Superintendente está fazendo pressão pelo voto na Chapa 2), distorce a verdadeira razão dos problemas da Fundação: a questão da FUNCEF *não é de “gestão”, é de concepção*.


Você deve ter estranhado nosso título “apoio com ressalva”. Vamos esclarecer – temos duas ressalvas:
- a primeira é em relação à falta de autocrítica dos companheiros que apoiam a Chapa 3 e que foram diretores da FUNCEF nos governos Lula e Dilma quanto aos investimentos estruturados que tiveram resultado ruim. Tudo indica que *a maior parte do déficit decorre do contencioso – _assunto que a Chapa 1 JOGA PRA DEBAIXO DO TAPETE_* – mas é inegável o impacto no resultado da FUNCEF das péssimas escolhas tipo Sete Brasil, VLT do Rio e Belo Monte. A Unidade Classista continuará cobrando politicamente esta autocrítica;
- segundo – e MAIS IMPORTANTE:  nossa *principal ressalva é em relação à própria FUNCEF*.


Explicando melhor, você deve ter percebido que as diversas chapas discutem e divergem qual deve ser o investimento prioritário: renda variável (Bovespa), investimentos estruturados (participação em bloco de controle de empresas), imóveis ou renda fixa. Para nós da Unidade Classista, essa “polêmica” é pobre e superficial, e mascara a verdadeira questão de fundo.


A questão de fundo é que _a Caixa nos vendeu a imagem da FUNCEF como_ *algo que ela não é*. Quando entramos pra Caixa, nos disseram que a FUNCEF era a “garantia de nosso futuro, de uma complementação que assegurasse uma aposentadoria digna”. Mas a crise é pedagógica – e a crise da FUNCEF demonstra que fundo de pensão não é garantido: o investimento de nossos recursos pela FUNCEF é *aplicação capitalista de mercado*, e como *toda aplicação capitalista de mercado... TEM RISCO!*


Aí a “discussão” sobre “melhor aplicação de recursos” torna-se surrealista, pois passamos a “pensar apenas no nosso umbigo” e desconsideramos o que é melhor para os trabalhadores e pro povo brasileiro”, que também somos nós.


Exemplo: se priorizarmos imóveis, estaremos torcendo pelo aumento da especulação imobiliária; se priorizarmos renda fixa, vamos torcer para que a Taxa SELIC aumente e volte a ficar em níveis estratosféricos; se priorizarmos investimentos estruturados, estaremos torcendo para que os trabalhadores de Belo Monte e do VLT não façam greve para não “desvalorizar nosso investimento”; se priorizarmos Bovespa, vamos torcer pelo aumento dos ganhos na especulação financeira.


A Unidade Classista apóia a Chapa 3 na FUNCEF, mas não disseminamos ilusões: o capitalismo nunca é bom para os trabalhadores.


UNIDADE CLASSISTA BANCÁRIA

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Esquerda, direita e o embargo da memória

Como no Brasil atual o original e o realmente novo são silenciados para que os discursos viciados possam ser mantidos para a ocupação do poder.
 

Eliane Brum *

Após a condenação de Luiz Inácio Lula da Silva em segunda instância, intelectuais bastante respeitáveis defenderam, no campo da esquerda, mais uma vez, que não é hora de debater os 13 anos do PT no poder. A justificativa é a de que o momento exige que a esquerda e a centro-esquerda se unam para enfrentar a direita, em nome da democracia. Ao mesmo tempo, no campo da direita, que tampouco é coesa, Michel Temer (MDB) e as forças que o sustentam no poder, apesar das denúncias de corrupção (ou por causa delas), inventaram  uma operação militar no Rio de Janeiro como mote popular para ter peso e influência na eleição de 2018.

Num campo, apresenta-se uma demanda para embargar a memória. No outro, usa-se a marquetagem política para silenciar realidades, criando um espetáculo. Ao ser produzida como factoide, caso da intervenção federal no Rio, o ato encobre o fato. A segurança é uma questão urgente. Mas não é possível enfrentá-la sem admitir que a política de “guerra às drogas”, que já foi abolida em partes mais sérias do mundo, é parte determinante do aumento da violência.

Em vez disso, consolida-se, pela escolha de uma operação militar, com soldados e tanques nas favelas e comunidades pobres, a guerra também como estética. De espasmo em espasmo, toda a atenção e a energia são deslocadas tanto para construir o espetáculo como para desconstruí-lo, como se testemunhou desde o anúncio da operação que tragou as atenções no Brasil e a maior parte do noticiário. Enquanto isso, o país se arruína um pouco mais.

Não pretendo usar mais parágrafos para analisar a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro como silenciamento das causas reais de uma violência que tem destruído as vidas dos mais pobres, em muito maior número a dos jovens negros. Há uma quantidade considerável de análises consistentes em circulação, produzidas por gente que se dedica ao tema há muitos anos. Meu ponto nesse artigo é analisar o silenciamento produzido no campo da esquerda ligada a Lula e ao PT. E como esses silenciamentos, só aparentemente polarizados, se conectam e se confundem.

A recente declaração do comandante do Exército ilumina a questão: o general Eduardo Villas Bôas afirmou, em 19 de fevereiro, que os militares que atuarão na intervenção no Rio precisam de “garantias para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade”. O que significa essa declaração? Que haverá torturas, sequestros e assassinatos de civis nas favelas e comunidades do Rio de Janeiro como houve na ditadura civil-militar (1964-1985)? Que o general quer “garantias” para que as tropas possam torturar, sequestrar e assassinar civis em nome do Estado, na operação do Rio, sem responder por isso? Que o general quer quebrar a lei e oficializar o Estado de exceção?

A crise da democracia é global, mas há algo de particular na crise de cada país. Já escrevi em artigo anterior que acredito que as raízes da atual crise da democracia no Brasil estão no próprio processo de retomada da democracia, após 21 anos de ditadura. As raízes da atual crise brasileira estão no apagamento dos crimes do regime de exceção e na impunidade dos torturadores e assassinos a soldo do Estado.

Ao retomar a democracia sem lidar com os mortos e os desaparecidos da ditadura civil-militar, o Brasil seguiu adiante sem lidar com o trauma. Um país que, para retomar a democracia, precisa esconder os esqueletos no armário – ou em covas clandestinas – é um país com a democracia deformada, no qual as fardas são sempre um ponto de instabilidade assombrando o cotidiano. Uma democracia deformada está aberta a mais deformações, como a história recentíssima do Brasil é pródiga em provar.

A desmemória não é um traço banal na história do Brasil. Ela costuma ser defendida como um “agora não é hora”, “este não é o momento”, “depois a gente cuida disso”. Foi assim com a Lei da Anistia, de 1979, que até hoje grupos da sociedade lutam para rever com o objetivo de fazer a justa responsabilização dos torturadores e assassinos do regime. O ato mais significativo para lidar com a memória do período de exceção foi justamente a Comissão da Verdade sobre os crimes da ditadura, que tanto preocupa o general, e a série de movimentos em torno dela, como as Clínicas do Testemunho pelo Brasil afora.

Esse processo de produção e documentação da memória sobre a ditadura foi, porém, interrompido pelo atual governo. O fato de que a democracia no Brasil supera os 30 anos sem lidar com o passado autoritário é um forte fator de desestabilização que costuma ser minimizado. Os efeitos do apagamento estão visíveis hoje nas ruas.

O Brasil é carente de uma direita com postura responsável e projeto consistente, capaz de pensar o país para além da política rasteira de ganhos privados e locupletações imediatas. O campo da direita não é coeso, mas nele predomina o discurso tosco, que tem nas bancadas do boi, da bala e da bíblia do Congresso, assim como nas milícias da internet, sua expressão mais barulhenta. Forjar realidades falsas se impôs como modo de operação, como por exemplo a recente difusão de que os espaços da arte estavam tomados por pedófilos. No caso das milícias, o próprio anúncio de uma filiação liberal é uma falsificação, na medida em que a prática contradiz os valores liberais mais básicos.

Neste momento, porém, chama a atenção como a esquerda ligada a Lula e à parte do PT tem atuado para embargar a memória. Caminham neste sentido os ataques àqueles que buscam refletir sobre os 13 anos do PT no poder, associado intimamente ao PMDB a partir do segundo mandato de Lula, e o papel desempenhado pelo partido, por Lula e por Dilma Rousseff na atual situação do Brasil.

Nenhum projeto de esquerda ou de centro-esquerda para o país faz sentido se, para se manter, precisa apagar capítulos da história. Por todas as razões e porque não se pode construir um projeto responsável de país sem a compreensão de onde se errou, assim como a consequente responsabilização pelo que foi causado pelos erros. É possível cogitar a hipótese de que, se tantos não tivessem silenciado após a primeira denúncia do mensalão e adiado a crítica e a autocrítica para um dia que nunca chega, os rumos poderiam ter sido diferentes também para Lula, Dilma Rousseff e o PT.

A pedra que barra a operação de apagamento nas biografias de Lula, de Dilma e do PT se chama Belo Monte, uma das maiores obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Não é uma pedra, mas milhares de toneladas de aço e cimento no rio Xingu, no Pará, sob as quais pairam a suspeita de propinoduto nas investigações da Lava Jato. A forma como a usina saiu do papel, depois de décadas de resistência dos povos indígenas e dos movimentos sociais da região, é claramente suspeita desde pelo menos o leilão, em 2010.

Mas, nesta área, a da Lava Jato, sempre se pode negar e alegar inocência para a opinião pública. A forma e a rapidez com que o processo de Lula foi conduzido na Justiça, no caso do tríplex do Guarujá, a fragilidade das provas e o comportamento pouco convencional de juízes de ambas as instâncias, que opinaram antes de julgar, conduzem a dúvidas razoáveis sobre a legitimidade das sentenças, embaralhando ainda mais a paisagem já bastante enevoada do Brasil atual.

Em Belo Monte, porém, as violações ao meio ambiente e aos direitos humanos, promovidas durante os governos do PT, são literalmente visíveis. E bastante difíceis de explicar quando um político e um partido afirmam defender o povo – e afirmam serem perseguidos por defender o povo.

Como explicar que milhares de famílias foram expulsas de suas casas, terras e ilhas ou “removidas forçadamente”, sem nenhuma assistência jurídica, muitas delas assinando com o dedo papeis que eram incapazes de ler? Como explicar que as greves de operários da usina, assim como as manifestações contra Belo Monte promovida por indígenas, ribeirinhos, pescadores, agricultores e moradores urbanos de Altamira foram reprimidas pela Força Nacional no período em que o Partido dos Trabalhadores estava no poder?

Como explicar que o PT permitiu, quando não apoiou, que a obrigatoriedade da proteção dos povos indígenas durante a construção da usina, assim como das ações de mitigação de seus efeitos sobre o rio e a floresta, se desvirtuasse num fluxo de mercadorias? Que as aldeias indígenas, mesmo as de recente contato, recebessem de TV e colchão a açúcar e refrigerantes, produzindo o que foi caracterizado formalmente pelo Ministério Público Federal como “etnocídio” (morte cultural), sem contar um aumento de mais de 100% na desnutrição de crianças indígenas entre 2010 e 2012?

Como explicar que a violência urbana disparou, em grande parte por causa do processo de Belo Monte, e Altamira se tornou o município com mais de 100 mil habitantes mais violento do Brasil, segundo o Atlas da Violência de 2017, produzido pelo Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Nacional de Segurança Pública? Como explicar que os bairros construídos para abrigar as famílias expulsas de suas casas não cumprem os requisitos mínimos determinados durante o licenciamento da usina e hoje se tornaram os novos territórios de violência de Altamira, com casas que já exibem rachaduras e se deterioram de forma acelerada?

Como explicar?

Não é de hoje que Belo Monte é uma pedreira inteira no caminho do discurso de Lula, Dilma Rousseff e do PT. Mas parte significativa da esquerda, que historicamente lidera a luta pelos direitos humanos no Brasil, calou-se diante do que acontecia – e acontece – no Xingu pela imposição de Belo Monte. Em vez de enfrentar as contradições, preferiu silenciar diante delas, silenciando-as. Como se chama isso do ponto de vista da ética?

Já a direita sempre apoiou a construção de Belo Monte, como grande obra de infraestrutura e oportunidade de negócios. Vale a pena não esquecer que o ex-várias vezes ministro da ditadura Delfim Netto foi um dos artífices do leilão da usina. Belo Monte só se tornou notícia negativa na maior parte da imprensa quando apareceu nas delações da Lava Jato e passou a interessar enfraquecer o PT com vistas ao impeachment de Dilma Rousseff.

Um dos últimos atos midiáticos da ex-presidente foi justamente inaugurar Belo Monte, o que mostra o tamanho da convicção de Dilma sobre a construção da usina. “Quero dizer que esse empreendimento de Belo Monte me orgulha muito pelo que ele produziu de ganhos sociais e ambientais”, discursou. A hidrelétrica é questionada por violações de direitos humanos e ambientais em 24 ações do Ministério Público Federal. As violações cometidas pelo Estado brasileiro na construção da usina estão sendo examinadas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Mesmo assim, Belo Monte é vendida hoje como “fato consumado”. Com frequência, mencionar Belo Monte em espaços da esquerda ligada a Lula e ao PT significa ouvir: “Mas ainda esse assunto? Belo Monte já foi”. A questão é: fato consumado para quem?
Como o “salvador dos pobres” produziu pobres?
Certamente não para os atingidos. Neste momento, Belo Monte se tornou uma pedreira ainda maior. Será interessante observar quanto mais ela ainda terá de aumentar de tamanho para que aquilo que aconteceu – e acontece – no Xingu seja finalmente visto em toda a sua proporção e significados.

Neste momento, Belo Monte se tornou uma pedreira maior também no caminho do discurso de Lula, porque é cada vez mais visível que a gigantesca obra do PAC produziu um contingente de pobres urbanos. O período em que o PT ocupou o poder foi decisivo para uma grande parcela de brasileiros, que já estavam nas periferias, melhorar sua qualidade de vida. É um fato. No Xingu, porém, e em outras regiões amazônicas, o que aconteceu foi um processo de conversão de povos tradicionais em pobres urbanos. Este também é um fato, que tenho documentado desde o início do processo.

Assim como um fato sustenta o discurso de Lula, Dilma e do PT, este outro fato coloca esse mesmo discurso em xeque: como “o salvador dos pobres” produziu pobres?
Pelo menos 378 famílias de ribeirinhos do Xingu reivindicam hoje a criação de um território coletivo para que possam recuperar seu modo de vida destruído por Belo Monte. A maioria dessas famílias vive em situação de pobreza, algumas delas em situação de extrema pobreza. No início de fevereiro, o Conselho Ribeirinho, que reúne os representantes de cada região do Xingu onde houve deslocamento de pessoas, esteve em Brasília para exigir a criação do território e já apresentaram um mapa com a proposta.

O Conselho Ribeirinho é apoiado e assessorado na reivindicação por organizações como Xingu Vivo Para Sempre e Instituto Socioambiental (ISA), pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), pelo Ministério Público Federal (MPF), pela Defensoria Pública da União (DPU) e pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos, entre outros apoios. Dois dos mais renomados antropólogos do país, Manuela Carneiro da Cunha e Mauro de Almeida, mostraram tanto a legitimidade como a urgência da criação de um território coletivo durante seminário na Universidade de Brasília, em 6 de fevereiro, do qual participaram também a presidente do IBAMA, Suely Araújo, e representantes da Secretaria do Patrimônio da União e da Casa Civil.

A Norte Energia, empresa concessionária de Belo Monte, convidou o antropólogo José Augusto Laranjeiras Sampaio para analisar a questão, e ele foi enfático ao defender os direitos dos ribeirinhos ao seu modo de vida. Governo e Norte Energia se comprometeram a estudar a proposta e discutir uma primeira avaliação das áreas em março. A empresa se comprometeu também a ampliar para todas as famílias reconhecidas pelo Conselho Ribeirinho um valor mensal de cerca de 900 reais para garantir um sustento mínimo enquanto não há solução definitiva.

O impasse é como esse processo vai se desenrolar com um consórcio que violou sistematicamente os direitos humanos e ambientais ao construir e operar a usina e um governo do (P)MDB que é parte integrante da arquitetura política e econômica – e, suspeita-se, de propinas – que viabilizou a implantação de Belo Monte. Há temores de que a crescente tensão na região esteja apenas sendo contida para não gerar más notícias em ano eleitoral e para não aumentar ainda mais o passivo social, ambiental e jurídico de uma usina cuja possível venda chegou a ser anunciada pela imprensa, informação que é negada pelos sócios.

“Quero território pra ser”, diz a ribeirinha Rita Cavalcante

O projeto de privatizar a Eletrobras, uma das estatais que compõem a Norte Energia, também poderia estar pesando na atual postura conciliadora. Só os próximos capítulos vão iluminar se há real disposição de criar um território ribeirinho, o que depende tanto da compra de áreas de fazenda pela Norte Energia quanto da destinação de terras da União.

Para os ribeirinhos, porém, o ritmo da fome não é o da burocracia. E o desespero aumenta a cada dia. “Quero território pra ser”, afirmou a ribeirinha Rita Cavalcante em Brasília, com a linguagem de amplidão que caracteriza essa população tradicional. Ela pontua assim a diferença entre terra e território, a terra ligada ao conceito de mercadoria, o território como identidade, como corpo, como foi apontado pelos antropólogos. Pontua também a diferença entre reassentamento e reterritorialização, como foi evidenciado pela procuradora da República em Altamira, Thais Santi.

Os ribeirinhos são uma pedreira tanto no caminho da direita quanto da esquerda ligada a Lula porque encarnam um modo de vida que se contrapõe a “tudo o que está aí”. Não é que eles pregam ou defendem. É de outra ordem: eles encarnam, vivem. Uma das populações menos compreendidas do país, o que se chama hoje de “ribeirinhos” ou “beiradeiros”, palavra que pessoalmente eu prefiro, surgiu nos rios amazônicos com a exploração do látex para a produção de borracha.

A maioria dos atuais ribeirinhos descende de nordestinos pobres que foram carregados para a Amazônia no final do século 19 para se tornarem seringueiros e/ou de soldados da borracha na Segunda Guerra Mundial (1939-45). Sempre que a produção da borracha deixou de ser interessante para o mercado, por uma razão ou outra, foram abandonados na floresta. Lá muitos formaram famílias com mulheres indígenas, parte delas roubada das aldeias, e criaram um modo de vida distinto. Às vezes numa margem do rio, às vezes em outra.

Quando a grilagem avançou sobre a floresta, muitos migraram para as ilhas dos rios amazônicos, o último reduto. Pescam, caçam, plantam uma roça de subsistência, fazem farinha, quebram castanha, tiram açaí, se há interesse voltam a cortar seringa, às vezes garimpam um pouco, alguns criam porcos ou galinhas, as atividades variam com a época do ano e também com as demandas do mercado.

Vivem em total acordo com a floresta e com o rio. Tenho recolhido definições de pobreza e de riqueza dos ribeirinhos ao longo dos últimos anos. Em síntese. “Ser rico é não precisar de dinheiro” e “Ser pobre é não ter escolha”. E a escolha, neste caso, é bastante ampla, desde o que comer e quando trabalhar até a liberdade de se mover pelo rio, pescando ora num lugar ora noutro e podendo fazer casa onde quiserem. Esse modo de vida tem sido barrado pelas pressões econômicas sobre a floresta. E, no Xingu, se agudizou com Belo Monte, a catástrofe que literalmente barrou o rio e a liberdade de ir e vir.

O modo de vida ribeirinho é revolucionário em si, o que assusta a direita e também parte da esquerda que vê o mundo nos termos do capital-trabalho.

A liberdade entranhou-se nos ribeirinhos que já nasceram na floresta, mas carregam no corpo uma memória transmitida oralmente que conta de séculos de jugo. É comum, ao se definirem como grupo identitário, afirmarem com orgulho: “Nunca ninguém mandou em mim”. Ou: “Nunca tive emprego”. Trabalham muito, mas nos seus próprios termos.
É fundamental perceber como esse modo de viver é revolucionário em si, na medida em que se contrapõe a uma visão de mundo dominante, para muitos a única. E como esse ser/estar no mundo não cabe num partido e num líder que só conseguem enxergar a vida nos termos do capital e trabalho.

Para parte da esquerda, bastaria um emprego e uma moradia num conjunto habitacional padronizado, que estaria tudo certo. Mas, para os ribeirinhos, nada disso faz sentido. E, para a direita, gente que não quer ter nem emprego nem patrão, mas tampouco se apresenta nos moldes do empreendedorismo, é perigosíssima.

Sem caber em nenhuma caixa, os ribeirinhos, assim como outros povos tradicionais, têm pagado um preço alto. Ao reivindicar um território coletivo em Brasília como reparação do irreparável, a destruição que Belo Monte causou nas suas vidas, eles provocam um movimento gigante. Eram pobres, na medida em que a maioria de seus ascendentes eram nordestinos fugidos da seca; criaram uma vida diferente na floresta depois que os patrões foram embora; e hoje se recusam a voltar a ser pobres urbanos.

Os ribeirinhos fizeram uma revolução inteira nas margens do rio e à margem do Estado
Em resumo: fizeram uma revolução inteira não contra, mas nas margens do rio e à margem do Estado. Como o Estado e os campos políticos vão lidar com isso quando não for mais possível silenciá-los?

Até mesmo como grupo identitário, os ribeirinhos encarnam um desafio, na medida em que sua identidade é justamente ser entre mundos. Muitos são indígenas mas são também outra coisa. São agricultores e não são ao mesmo tempo. São isso e também aquilo. São múltiplos. Essa identidade caleidoscópica e também mutante é extremamente original. E, como nenhuma outra, responde aos desafios de um mundo assombrado pela mudança climática.

Toda essa originalidade criativa e criadora é negada, quando não destruída, tanto pela direita quanto por parte da esquerda. Como ela coloca em evidência contradições estruturais e aponta as fissuras nos discursos e na produção de mitologia política, os polos se despolarizam para impedir que a barragem seja rompida. Mas, se Belo Monte ainda se ergue no Xingu, essa outra barragem já rompeu.

Qualquer impedimento à produção de memória sobre a vida vivida é, já no seu âmago, autoritário. Não é possível afirmar a defesa da democracia e, ao mesmo tempo, defender a suspensão temporária da memória. Não há adiamento possível para refletir sobre os 13 anos do PT no poder sem esbarrar no limite da ética, este sim intransponível. Como dizer para o ribeirinho que teve sua casa e sua ilha incendiadas ou afogadas e hoje vive com menos de dois reais por dia na periferia urbana da cidade mais violenta do país que sua história, sua dor e sua vida não importam, que não tem lugar na história, que não é hora?

Houve avanços importantes nas políticas públicas em áreas como a da saúde, da educação e da cultura, houve as cotas raciais nas universidades, houve a ampliação do Bolsa Família e o aumento real do salário mínimo, entre outras conquistas. Mas houve também uma visão de desenvolvimento medíocre e predadora, que massacrou a floresta e os povos da floresta. Houve a corrupção. E houve Belo Monte, onde todas as contradições de Lula, Dilma e do PT no poder, assim como o DNA de suas alianças, estão desenhadas. Não dá para fazer memória de uma parte e apagar a outra parte. Só é possível seguir enfrentando as contradições.

Belo Monte é, a cada dia mais, uma pedreira incontornável no caminho de quem deseja embargar a memória, como se fosse possível criar um projeto de país sem lidar com o passado e com o presente. Os ribeirinhos do Xingu e de outros rios amazônicos ameaçados por grandes obras de infraestrutura e de mineração, pela grilagem e pelo avanço da fronteira agropecuária representam hoje, junto com os movimentos de sem tetos nas grandes cidades, os povos indígenas e os quilombolas, não só a potência de agir do Brasil, mas a potência de ser Brasis, um país que só pode existir no plural. Brasis como entremundos também.

*Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

Fonte: https://brasil.elpais.com





terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

*UNIR, RESISTIR E AVANÇAR!


POR UMA CHAPA UNITÁRIA PARA O SINDICATO DE BANCÁRIOS DO RIO!*

O momento atual é o mais duro desde o governo FHC: reforma trabalhista, desemprego em massa e ameaça de privatizações são alguns dos ataques de Temer e dos patrões. Numa conjuntura dessas, é uma necessidade vital e de sobrevivência unir todos os que querem resistir ao desmonte das estatais e à destruição de direitos.

A Unidade Classista Bancária, integrante da Frente de Esquerda Socialista, entende que o momento por que passamos exige que somemos esforços na defesa da categoria e que fortaleçamos os instrumentos de organização e luta dos trabalhadores. Por isso, defendemos que nesta conjuntura devemos construir uma chapa unitária para as próximas eleições do Sindicato sem mascarar as divergências com a atual Diretoria do SEEB.

Assim, convidamos todos os companheiros a comparecerem à Plenária Unir Resistir e Avançar - por uma chapa unitária para o Sindicato dos Bancários do Rio, que vai se realizar amanhã, dia 28/02, às 18:00h, no auditório do SEEB - AV Pres Vargas 502 / 21º andar

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

UNIDADE NA DIFERENÇA PARA ENFRENTAR OS ATAQUES DE TEMER E DOS PATRÕES!



O momento atual é o mais duro para os trabalhadores desde os tempos do governo Fernando Henrique Cardoso:

- o desemprego de mais de 12% empurra muitos trabalhadores apara a informalidade e aumenta a insegurança daqueles que, como nós, estamos (ainda) empregados;

- a reforma trabalhista retira direitos, acaba de vez com a possibilidade de incorporação de função no caso de descomissionamento e legaliza o subemprego e o trabalho precário;

- nos bancos privados, a reforma trabalhista já está provocando pressões para que os bancários aceitem fazer atendimento digital ao cliente sem controle de ponto, com jornadas de até 10 horas por dia ou que aceitem contratação como “microempresário individual” sem nenhum direito trabalhista;

- o desgoverno ilegítimo de Temer ameaça os trabalhadores com uma reforma da Previdência que enfraquece a previdência pública e torna quase impossível a aposentadoria para os jovens trabalhadores;

- as estatais, e em particular os bancos públicos, são vítimas de uma feroz campanha midiática de desmoralização, preparando o terreno para o esvaziamento e privatização;

- no Banco do Brasil e na Caixa, as reestruturações, descomissionamentos e pressão por metas provocam um verdadeiro clima de terror.


                Numa conjuntura dessas, a unidade de todos os que querem resistir ao desmonte das estatais e à destruição de nossos direitos é uma necessidade vital e de sobrevivência. A greve do dia 28/04 do ano passado, contra a Reforma Trabalhista, foi uma demonstração da força dessa unidade. Precisamos avançar nela e construir, no próximo 19 de fevereiro, um grande Dia Nacional de Luta e Paralisações para barrar a Reforma da Previdência.

A unidade da categoria bancária é fundamental para, junto com o restante da classe trabalhadora, barrar os ataques gerais e também para barrar os ataques específicos dentro dos bancos públicos e privados.

Diante de tudo o que foi colocado, nós, bancários da Frente de Esquerda Socialista e independentes que junto com outros companheiros construímos a Oposição Bancária Unificada do RJ, abrimos, no interior da Oposição Bancária , o debate sobre a necessidade da unidade, considerando também o processo eleitoral do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, que tem inscrição de chapas até 01 de março e eleição de 10 a 14 de abril. Neste debate, algumas diferenças se manifestaram, mas todos os setores deixaram aberta a possibilidade de formação de uma chapa única nas eleições.

                  Nós, bancários que assinamos este documento,entendemos que a necessária e imprescindível unidade não pode ser entendida como um biombo atrás do qual se escondem todas as nossas divergências com a atual direção do Sindicato. Criticamos em muitos momentos a paralisia que frequentemente acometeu essa direção, especialmente na hora de mobilizar a categoria e de organizar a resistência contra o desmonte nos bancos públicos, postura muitas vezes relacionada aos acordos estabelecidos com o governo anterior que comprometiam a independência e autonomia da entidade; também criticamos a prioridade que muitas vezes a Diretoria do SEEB/Rio deu a ações institucionais (tais como contatos com parlamentares e reuniões de entidades), em detrimento daquilo que consideramos o mais importante: organizar a luta direta da categoria, pois só a luta dos trabalhadores conquista e preserva direitos.

As diferenças que acumulamos nos fizeram optar, nas últimas 4 eleições da direção do Sindicato, pela formação de uma chapa de Oposição.

            Compreendemos, no entanto, que o momento grave pelo qual passamos exige mais de nós. Exige uma atuação mais contundente na luta e na defesa do programa acumulado pela Oposição Bancária Unificada nos últimos anos. Exige que somemos esforços na defesa intransigente da categoria bancária, que tem sua existência diretamente ameaçada hoje pelos ataques promovidos pelos bancos e pelo governo. Exige que fortaleçamos os instrumentos de organização e luta dos trabalhadores.

               Sendo assim, defendemos que nesta conjuntura devemos empreender todos os esforços para construir uma chapa unitária para as próximas eleições do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro sem mascarar as divergências que temos com as correntes políticas que compõem a atual Diretoria do SEEB. Entendemos que fortalecer o Sindicato neste momento é permitir que nele se expressem, democraticamente, todas as diferenças que existem no movimento bancário hoje. Afinal, a entidade é uma ferramenta do conjunto da categoria bancária.

                E para essa construção de chapa unitária na diferença, entendemos que o melhor método é que a composição desta chapa seja definida por meio de uma prévia na base, na qual as diversas correntes de opinião dispostas a construir uma chapa de unidade apresentem suas visões políticas e propostas para o movimento sindical bancário. Conclamamos todos os bancários comprometidos com a luta dos trabalhadores a se engajarem neste projeto de unidade na diferença.