Avante Bancário

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Adelina, A Charuteira

 

Adelina nasceu no Maranhão por volta do século XIX e foi uma mulher escravizada, assim como sua mãe. Não se sabe ao certo qual era a sua função dentre os escravos, porém temos a informação que Adelina era filha de um rico senhor e, sendo assim, cresceu com a promessa de um dia ser libertada. Apesar das promessas, passou boa parte de sua vida sendo escrava do próprio pai.


Adelina sabia ler e escrever, habilidades incomuns e altamente desestimuladas, uma vez que a manutenção da escravidão dependia principalmente da submissão dos escravizados, que não apresentavam condições para questionar sua situação. A sua mãe criou todos os filhos do senhor e, no leito de morte, recebeu a promessa que ele libertaria a filha assim que ela completasse 17 anos.


Com o passar dos anos, o pai de Adelina empobreceu. Ele passou a fabricar charutos e, a partir de então, Adelina tornou-se responsável pela venda, deslocando-se duas vezes por dia até a cidade, passando em cada um dos bares que encontrava pelo caminho. Além dos charutos, Adelina também vendia fumo aos transeuntes.


Nas vezes que passava pelo Largo do Carmo, era abordada por estudantes do Liceu, que passaram a ser clientes. Enquanto fazia suas vendas, Adelina assistia aos comícios abolicionistas promovidos pelos estudantes do colégio, tornando-se uma frequentadora assídua e parte do movimento.


O conhecimento que Adelina possuía da cidade e sua facilidade em transitar sem levantar suspeitas, uma vez que andava de rua em rua vendendo fumo, acabou por ser um trunfo para o movimento abolicionista. A charuteira observava e antecipava as ações da polícia, conhecia suas rotas e se certificava de avisar os integrantes do movimento caso notasse qualquer ameaça. Ela era responsável por enviar informações e estratégias dos escravistas à Associação Clube dos Mortos, que escondia escravos e promovia suas fugas.


Sua atuação como uma mulher negra que lutou contra a escravidão, porém, não é reconhecida por uma boa parcela da população brasileira. O seu nome foi invisibilizado na história nacional, assim como muitos outros, devido ao racismo e ao machismo daqueles que detêm a narrativa.


Texto de Francielle Luz e Jonas Vincent publicado no site GFT

sábado, 8 de abril de 2023

AINDA SOBRE A HISTÓRIA DE UMA PLACA!

*Ivan Pinheiro

Recentemente, o militante do PC chileno Mauricio Leandro visitou a sede nacional do PCB no Rio de Janeiro, entusiasmando-se com a história da placa cuja foto ilustra este texto.

Voltando ao Chile, aquele camarada manteve comigo uma simpática conversa virtual e, em seguida, divulgou seu inspirado artigo “101 anos do PCB: a história de uma placa”, publicado no Brasil pelos portais Opera Mundi [¹] e O Poder Popular.

Este fato suscitou há alguns dias um afetivo encontro naquela sede entre os militantes que havíamos participado da ação de resgate das letras e símbolos que compõem a placa e que, naquele momento, estavam em local inadequado, ou seja, na antiga sede do então Comitê Central, cujo núcleo dirigente conspirava para liquidar o partido alguns dias depois. 

Esta ousada ação de resgate se deu às vésperas de um inexorável racha partidário, marcado para acontecer em São Paulo, no dia 25 de janeiro de 1992, em uma farsa cinicamente chamada de “X Congresso do PCB”, fraudado com o direito de voto atribuído a não militantes do partido e sem qualquer anteprojeto de tese política para debate, restrito à proposta de assassinar o PCB e escolher o nome do partido “laico” que o sucederia! A pasta fornecida aos “delegados” continha apenas algumas folhas de papel em branco e uma caneta!

O objetivo da bem sucedida ação de resgate daqueles símbolos era preservá-los para que, pouco tempo depois, viessem a ser ostentados naquela que seria a nova e verdadeira sede do CC, como uma lembrança da vitoriosa luta de milhares de camaradas que, em sua maioria, não mantiveram o PCB apenas por nostalgia ou patriotismo partidário, mas para reconstruí-lo desde uma perspectiva revolucionária. 

Em nossas recordações, relembramos todos os detalhes da operação, desde o planejamento, o nosso encontro às 5 horas da manhã, as ferramentas utilizadas, a delicadeza de seu uso para preservação das peças retiradas do local, o transporte delas para fora do edifício, sua guarda em local seguro e as cervejas com as quais brindamos o êxito da empreitada, no lugar do café da manhã! 

Lembramos de algumas reações, como a da camarada Zuleide, que se indignou com a nossa iniciativa, não por a termos levado a efeito, mas por não ter sido convidada a dela participar!

Foi com muita emoção que reencontrei, agora maduros, esses então jovens comunistas que aceitaram de pronto o chamado para aquela tarefa. Pela ordem na foto, da esquerda para a direita (física e não politicamente!), tenho orgulho de estar entre os camaradas Paulo Jorge (PJ ou Paulão), Jorge Luiz Fernandes (Jorginho) – desde então militantes no sindicalismo bancário do RJ – e Carlos Gustavo Tamm (Gugu), conceituado matemático e atual Presidente da Associação Cultural José Marti, de solidariedade a Cuba. [²]

Não posso deixar de lembrar que retiramos os símbolos e letras com muito zelo da parede onde não mereciam estar, um por um, para depois serem colocados neste vistoso painel de madeira pelo meu amigo e camarada de lutas Luiz Rodolfo Viveiros de Castro, mais conhecido como Gaiola, que aprendeu o ofício de carpinteiro para sobreviver no seu segundo exílio, desta vez na França, após a saída dos exilados brasileiros que viviam no Chile, em função do golpe da burguesia local e do imperialismo contra Salvador Allende, que pagou com a própria vida.

Guapimirim (RJ), 8 de abril de 2023

[¹] - https://operamundi.uol.com.br/permalink/79797

[²] - Infelizmente, o camarada Elvis Marciano, ex-dirigente do Sindicato dos Bancários do RJ e ativo participante daquela ação, não pode estar presencialmente em nosso encontro como desejava, por conta do advento de compromisso imprevisto.

*Ivan Pinheiro é bancário aposentado; foi Presidente do Sindicato dos Bancários do RJ e Secretário Geral do PCB, em que segue militando.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Pra Dona Maria, aposentada pelo INSS a taxa é 1,97% no consignado.

 

*Gerardo Santiago

Para a Taurus, fabricante de armas, o governo, através da Finep, empresta R$ 175 milhões mais uns trocados.

A taxa de juros desse empréstimo é de 0,385% AO ANO e prazo de carência de 36 meses.

Para emprestar um trocadinho muito mais modesto que esse para a D. Maria através do crédito consignado de risco zero, com as prestações descontadas mensalmente da aposentadoria dela do INSS, o governo quer cobrar 1,97% AO MÊS! E esse é o governo que quer colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda?
Nos comentários, links para reportagens detalhando os dois casos: consignado INSS e Taurus.



*Gerardo Santiago: Aposentado do BB, Advogado e Militante do PCB.

segunda-feira, 27 de março de 2023

A Paris dos meus sonhos.

*André Lavinas.

Pisei naquelas pedras.
Deitei-me ao lado deles
em Père lachaise.
O muro dos comunardos!
O corpo começou aquele
Singelo, suave, mas incontrolável convulsionar.
O diafragma em descompasso com a respiração
O soluço antes da lágrima que,
Enfim, começa a deslizar sobre a enrugada tez.
Imagino a altivez na hora crucial.
Aquelas balas eram só para aqueles corpos, mas estilhaçaram o velho mundo
E ainda ricocheteiam através dos tempos!
Mas nós somos e seremos muitos mais do que os algozes e seus mestres.
E todas as nossas balas serão pra estes.
Só então o último fuzil calará.
O cheiro da pólvora será o dos festejos.
Todos numa comuna, mas não mais comunardos.
Aí então seremos gente.
Aí então haverá humanidade.
*André Lavinas: Empregado do BB, Ex-Diretor do SeebRio e Ex-militante do PCB.

sábado, 25 de março de 2023

Quando e por que nascemos, PCB 101 anos de sua Fundação no Brasil.

*Mauro Iasi


Não sei quantos anos temos.

Sei que festejamos hoje 95 anos porque nascemos em 1922.

Mas, talvez tenha sido antes, talvez tenhamos nascido em 1917 quando os trabalhadores russos
iniciaram a construção do futuro, ou foi em 1919 quando na Internacional sonhamos sonhos planetários.

Talvez tenha sido antes ainda.

Em 1871, na Paris Revolucionária da Comuna ou em 1848, quando os trabalhadores levantaram-se para falar com sua própria voz.

Não sei, mas talvez tenha sido antes.

Quando dois alemães se encontraram e viram o mundo através de nossos olhos nos mostrando o caminho da emancipação.

Mas talvez não.

Talvez tenha sido há muito mais tempo: quando um trabalhador olhou para suas mãos e percebeu que não eram mais suas mãos.

Quando olhou para seus pés e viu que a terra não era mais a sua terra.

Não sei, mas acredito que foi ali que nascemos.

Talvez por isso é que nascemos.

Talvez por isso vivemos tanto tempo.

Talvez por isso resistimos.

Talvez por isso estejamos aqui hoje para dizer aos trabalhadores: _ Olha, esta são suas mãos, são seus os produtos do trabalho.

_ Olha, esta é tua terra, são nossos seus frutos.

_ Coragem, levanta a cabeça e veja: olha este sol que se insinua por trás das nuvens que o escondia.

Não há noite tão longa que derrote o dia.

Veja como tinge de vermelho o universo.

_ Levanta tua mão, camarada, assim...agora fecha o punho, isso...Lembra como era aquela canção?

Coragem, vocês nunca estarão sozinhos porque aqui estamos camaradas.

Por isso nascemos.

Por isso lutamos tanto.

É por vocês camaradas que fomos, que somos, que seremos sempre Comunistas!



*Mauro Luís Iasi: é um pesquisador, historiador, sociólogo, político e professor universitário brasileiro, filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).[2] É também poeta com diversos poemas publicados, incluindo uma coletânea deles intitulada Meta amor fases.[3][4][5][6]
Mauro faz parte do Comitê Central do Comitê Central do PCB.


quarta-feira, 22 de março de 2023

O que era ruim ficou ainda pior! Todos contra a privatização da água!


*Eduardo Grandi.

O presidente Bolsonaro sancionou o novo marco do saneamento, a lei 14.026, que aponta no sentido da completa privatização das águas do Brasil. Um fato novo e muito grave é que, dentre os inúmeros trechos da nova lei que Bolsonaro vetou, está o artigo 16, que tornou o projeto ainda pior. De acordo com figuras “insuspeitas” como o senador coca-cola Tasso Jereissati (PSDB), o veto teria traído acordo feito por oposição e governadores com Bolsonaro, acordo que permitiu a própria aprovação da lei no Congresso, o que reforça a verdade historicamente comprovada de que não se deve negociar com fascistas.

O artigo 16 previa uma regra de transição ao novo marco, dando o prazo (já curto) de março de 2022 para as companhias estaduais renovarem ou assinarem contratos (chamados contratos de programa) diretamente com os municípios. Com o veto, a partir de agora todos os novos contratos terão de ser licitados, e não há regra de transição. Isso é grave porque era necessário um prazo mínimo para as estatais se adaptarem à nova regra. Antes de participar de qualquer licitação, as estatais precisam mudar todo seu sistema contábil, levantando ativos e registrando arrecadação e custos por município, enquanto o capital privado, já adaptado a esse sistema, fica em condição privilegiada de se apropriar das águas do país.

No fundo, o problema é que a nova lei é toda baseada num mito, vendido pelo capital privado através de seus representantes, o governo e a imprensa: o mito de que o antigo marco do saneamento privilegiava as companhias estaduais, e o novo viria para colocar empresas públicas e privadas em igualdade de condições para competir. Como se “competição” fosse solução, ainda mais num monopólio natural como o saneamento. Na lei antiga (11.445 de 2007), embora as estatais pudessem assinar contratos de programa diretamente com as cidades, tais contratos estabeleciam uma série de regras, como metas de ampliação da cobertura e redução de perdas, de forma que a sociedade só tinha a ganhar com eles. O problema é que a maioria das cidades simplesmente não quiseram assinar tais contratos! Sob a legislação anterior, o setor privado já tinha autorização de atuar no saneamento, e o fazia através de constantes campanhas de lobby junto a prefeitos e vereadores (frequentemente comprando-os junto com a mídia local) para licitar os serviços ao invés de assiná-los com as estatais.

Então já havia concorrência, ainda que desleal e corrupta. Já a nova lei beneficia abertamente o interesse privado. A maioria das estatais não tem como vencer licitações, pois têm o ônus de sustentar municípios pequenos e nada rentáveis, enquanto o capital privado só possui o filé, as cidades rentáveis. Além disso, a lei aprovada no Congresso ainda traz aberrações como o artigo 7º, que estabelece que os atuais contratos privados podem ser adequados às novas regras pelo aumento da tarifa (mas somente os privados!) e em outro trecho diz que o acesso a recursos federais fica condicionado a regras a serem definidas pelos ultraliberais de Brasília. Assim, sobrará ainda mais dinheiro público para empresas privadas, dinheiro que historicamente sempre sobrou nas privatizações, e faltará muito mais dinheiro público ao que restar das empresas públicas! Prova disso está na declaração de Gustavo Montezano, presidente do BNDES (principal agente de fomento federal), que afirmou em uma live que o Estado brasileiro “está comprado pela agenda” da privatização da água…

Agora, como se não bastasse, há também a abolição da regra de transição do artigo 16. Tal veto, mais do que nunca, deixa claro que o objetivo do novo marco nunca foi de resolver os problemas do saneamento, mas sim de acabar com as estatais, abrindo espaço a um assalto privado às águas jamais visto no mundo. Tudo isso baseado em uma visão ideológica de pretensa superioridade do privado, viés que não surge do nada, pois responde aos interesses poderosos do capital privado. Mas acabar com estatais é acabar com a transparência e o controle social num setor essencial à vida. Com isso, sofrem trabalhadores do setor (pela piora acentuada nas condições salariais e de trabalho), e sofre também a população, com perda do controle social e a quase certa disparada nas tarifas, tal como ocorreu com o setor elétrico nos anos 90, setor que guarda grande semelhança com o saneamento em termos de porte e de tempo de retorno dos investimentos.

Trata-se de verdadeiro crime de lesa-pátria entregar as águas brasileiras, que estão entre as maiores reservas do mundo, verdadeiro petróleo do século 21, para corporações privadas usarem ao seu bel-prazer.

Em suma, o povo tem muito a perder com a transformação em médio e longo prazo da água, um bem essencial à vida, numa mercadoria como outra qualquer, disponível somente a quem tem dinheiro. Por essa razão, é tarefa urgente pressionar deputados, senadores e governadores a derrubarem o veto presidencial ao artigo 16, única chance de o povo brasileiro sobreviver ao furacão privatista que pretende tirar para sempre as águas do país de suas mãos.

*Eduardo Grandi, trabalhador em saneamento e militante do PCB

Fonte:  https://pcb.org.br/portal2/25852.

terça-feira, 21 de março de 2023

Aumentar idade para a aposentadoria, é bom pra quem?

*Gerardo Santiago

“Como as pessoas estão vivendo mais tempo atualmente, é preciso subir a idade mínima para a aposentadoria ou o sistema previdenciário vai se tornar financeiramente inviável.”
Certamente você já ouviu ou leu o argumento acima inúmeras vezes, repetido de várias formas por um monte de jornalistas, economistas, empresários, burocratas e claro, políticos defendendo alguma “reforma” da previdência social em algum país, invariavelmente para fazer a aposentadoria do trabalhador comum ficar mais distante e mais magra. Dizem todos eles, em coro, que “não há alternativa” e tentam conferir a esse argumento uma natureza “técnica” e “neutra”, sendo qualquer contraponto imediatamente rotulado como “ideológico” ou “político”. Analisemos o tema mais a fundo.

Que as pessoas vivem mais hoje do que há algumas décadas é fato. Na França, onde hoje o governo de Macron tenta impor uma “reforma” dessas pela força, a expectativa de vida é de 83 anos, comparada com 69 anos em 1960. Acontece que não foi só a expectativa de vida que mudou, na França e no mundo.

Se hoje os franceses vivem vinte por cento mais do que há 63 anos, a economia daquele país cresceu 47 vezes nesse mesmíssimo período. A produtividade do trabalho também cresceu enormemente nesse mesmo tempo, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico. A população francesa era de 46 milhões de pessoas em 1960 e hoje é de 68 milhões, cresceu 47% no período. Quer dizer, o que mais cresceu entre 1960 e 2022 foi a economia, a riqueza, numa proporção muitíssimo maior que a expectativa de vida (235 vezes mais) e que a população (98 vezes mais). Onde reside então a dificuldade econômica para permitir que os anos de vida a mais dos trabalhadores sejam para viver e não para trabalhar?

Na verdade, não se trata de uma questão “técnica”, mas de uma escolha política: o crescimento da economia e o desenvolvimento científico e tecnológico beneficiarão a quem? Ao povo, aos trabalhadores, ou aos donos do capital que não querem ser tributados para pagar as aposentadorias dos pobres? Essa escolha política é definidora de que sociedade queremos, uma democrática e igualitária ou uma injusta e desigual dividida entre uma pequena minoria privilegiada e uma esmagadora maioria despossuída.

Considerando ainda que o número de postos de trabalho em proporção à população diminui apesar da economia crescer, o que cria um desemprego estrutural, e que são exatamente os trabalhadores mais velhos que tem mais dificuldade de conseguir um trabalho, fica evidente a crueldade e a natureza antipopular das “reformas da previdência” como a de Macron e o que está por trás delas. É a luta de classes, estúpido!
*Gerardo Santiago: Aposentado do BB, Ex-Diretor do SEEB/RIO, EX- Diretor da PREVI, Advogado e Militante do PCB.