Avante Bancário

sábado, 25 de março de 2023

Quando e por que nascemos, PCB 101 anos de sua Fundação no Brasil.

*Mauro Iasi


Não sei quantos anos temos.

Sei que festejamos hoje 95 anos porque nascemos em 1922.

Mas, talvez tenha sido antes, talvez tenhamos nascido em 1917 quando os trabalhadores russos
iniciaram a construção do futuro, ou foi em 1919 quando na Internacional sonhamos sonhos planetários.

Talvez tenha sido antes ainda.

Em 1871, na Paris Revolucionária da Comuna ou em 1848, quando os trabalhadores levantaram-se para falar com sua própria voz.

Não sei, mas talvez tenha sido antes.

Quando dois alemães se encontraram e viram o mundo através de nossos olhos nos mostrando o caminho da emancipação.

Mas talvez não.

Talvez tenha sido há muito mais tempo: quando um trabalhador olhou para suas mãos e percebeu que não eram mais suas mãos.

Quando olhou para seus pés e viu que a terra não era mais a sua terra.

Não sei, mas acredito que foi ali que nascemos.

Talvez por isso é que nascemos.

Talvez por isso vivemos tanto tempo.

Talvez por isso resistimos.

Talvez por isso estejamos aqui hoje para dizer aos trabalhadores: _ Olha, esta são suas mãos, são seus os produtos do trabalho.

_ Olha, esta é tua terra, são nossos seus frutos.

_ Coragem, levanta a cabeça e veja: olha este sol que se insinua por trás das nuvens que o escondia.

Não há noite tão longa que derrote o dia.

Veja como tinge de vermelho o universo.

_ Levanta tua mão, camarada, assim...agora fecha o punho, isso...Lembra como era aquela canção?

Coragem, vocês nunca estarão sozinhos porque aqui estamos camaradas.

Por isso nascemos.

Por isso lutamos tanto.

É por vocês camaradas que fomos, que somos, que seremos sempre Comunistas!



*Mauro Luís Iasi: é um pesquisadorhistoriadorsociólogopolítico e professor universitário brasileiro, filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).[2] É também poeta com diversos poemas publicados, incluindo uma coletânea deles intitulada Meta amor fases.[3][4][5][6]
Mauro faz parte do Comitê Central do Comitê Central do PCB.


quarta-feira, 22 de março de 2023

O que era ruim ficou ainda pior! Todos contra a privatização da água!


*Eduardo Grandi.

O presidente Bolsonaro sancionou o novo marco do saneamento, a lei 14.026, que aponta no sentido da completa privatização das águas do Brasil. Um fato novo e muito grave é que, dentre os inúmeros trechos da nova lei que Bolsonaro vetou, está o artigo 16, que tornou o projeto ainda pior. De acordo com figuras “insuspeitas” como o senador coca-cola Tasso Jereissati (PSDB), o veto teria traído acordo feito por oposição e governadores com Bolsonaro, acordo que permitiu a própria aprovação da lei no Congresso, o que reforça a verdade historicamente comprovada de que não se deve negociar com fascistas.

O artigo 16 previa uma regra de transição ao novo marco, dando o prazo (já curto) de março de 2022 para as companhias estaduais renovarem ou assinarem contratos (chamados contratos de programa) diretamente com os municípios. Com o veto, a partir de agora todos os novos contratos terão de ser licitados, e não há regra de transição. Isso é grave porque era necessário um prazo mínimo para as estatais se adaptarem à nova regra. Antes de participar de qualquer licitação, as estatais precisam mudar todo seu sistema contábil, levantando ativos e registrando arrecadação e custos por município, enquanto o capital privado, já adaptado a esse sistema, fica em condição privilegiada de se apropriar das águas do país.

No fundo, o problema é que a nova lei é toda baseada num mito, vendido pelo capital privado através de seus representantes, o governo e a imprensa: o mito de que o antigo marco do saneamento privilegiava as companhias estaduais, e o novo viria para colocar empresas públicas e privadas em igualdade de condições para competir. Como se “competição” fosse solução, ainda mais num monopólio natural como o saneamento. Na lei antiga (11.445 de 2007), embora as estatais pudessem assinar contratos de programa diretamente com as cidades, tais contratos estabeleciam uma série de regras, como metas de ampliação da cobertura e redução de perdas, de forma que a sociedade só tinha a ganhar com eles. O problema é que a maioria das cidades simplesmente não quiseram assinar tais contratos! Sob a legislação anterior, o setor privado já tinha autorização de atuar no saneamento, e o fazia através de constantes campanhas de lobby junto a prefeitos e vereadores (frequentemente comprando-os junto com a mídia local) para licitar os serviços ao invés de assiná-los com as estatais.

Então já havia concorrência, ainda que desleal e corrupta. Já a nova lei beneficia abertamente o interesse privado. A maioria das estatais não tem como vencer licitações, pois têm o ônus de sustentar municípios pequenos e nada rentáveis, enquanto o capital privado só possui o filé, as cidades rentáveis. Além disso, a lei aprovada no Congresso ainda traz aberrações como o artigo 7º, que estabelece que os atuais contratos privados podem ser adequados às novas regras pelo aumento da tarifa (mas somente os privados!) e em outro trecho diz que o acesso a recursos federais fica condicionado a regras a serem definidas pelos ultraliberais de Brasília. Assim, sobrará ainda mais dinheiro público para empresas privadas, dinheiro que historicamente sempre sobrou nas privatizações, e faltará muito mais dinheiro público ao que restar das empresas públicas! Prova disso está na declaração de Gustavo Montezano, presidente do BNDES (principal agente de fomento federal), que afirmou em uma live que o Estado brasileiro “está comprado pela agenda” da privatização da água…

Agora, como se não bastasse, há também a abolição da regra de transição do artigo 16. Tal veto, mais do que nunca, deixa claro que o objetivo do novo marco nunca foi de resolver os problemas do saneamento, mas sim de acabar com as estatais, abrindo espaço a um assalto privado às águas jamais visto no mundo. Tudo isso baseado em uma visão ideológica de pretensa superioridade do privado, viés que não surge do nada, pois responde aos interesses poderosos do capital privado. Mas acabar com estatais é acabar com a transparência e o controle social num setor essencial à vida. Com isso, sofrem trabalhadores do setor (pela piora acentuada nas condições salariais e de trabalho), e sofre também a população, com perda do controle social e a quase certa disparada nas tarifas, tal como ocorreu com o setor elétrico nos anos 90, setor que guarda grande semelhança com o saneamento em termos de porte e de tempo de retorno dos investimentos.

Trata-se de verdadeiro crime de lesa-pátria entregar as águas brasileiras, que estão entre as maiores reservas do mundo, verdadeiro petróleo do século 21, para corporações privadas usarem ao seu bel-prazer.

Em suma, o povo tem muito a perder com a transformação em médio e longo prazo da água, um bem essencial à vida, numa mercadoria como outra qualquer, disponível somente a quem tem dinheiro. Por essa razão, é tarefa urgente pressionar deputados, senadores e governadores a derrubarem o veto presidencial ao artigo 16, única chance de o povo brasileiro sobreviver ao furacão privatista que pretende tirar para sempre as águas do país de suas mãos.

*Eduardo Grandi, trabalhador em saneamento e militante do PCB

Fonte:  https://pcb.org.br/portal2/25852.

terça-feira, 21 de março de 2023

Aumentar idade para a aposentadoria, é bom pra quem?

*Gerardo Santiago

“Como as pessoas estão vivendo mais tempo atualmente, é preciso subir a idade mínima para a aposentadoria ou o sistema previdenciário vai se tornar financeiramente inviável.”
Certamente você já ouviu ou leu o argumento acima inúmeras vezes, repetido de várias formas por um monte de jornalistas, economistas, empresários, burocratas e claro, políticos defendendo alguma “reforma” da previdência social em algum país, invariavelmente para fazer a aposentadoria do trabalhador comum ficar mais distante e mais magra. Dizem todos eles, em coro, que “não há alternativa” e tentam conferir a esse argumento uma natureza “técnica” e “neutra”, sendo qualquer contraponto imediatamente rotulado como “ideológico” ou “político”. Analisemos o tema mais a fundo.

Que as pessoas vivem mais hoje do que há algumas décadas é fato. Na França, onde hoje o governo de Macron tenta impor uma “reforma” dessas pela força, a expectativa de vida é de 83 anos, comparada com 69 anos em 1960. Acontece que não foi só a expectativa de vida que mudou, na França e no mundo.

Se hoje os franceses vivem vinte por cento mais do que há 63 anos, a economia daquele país cresceu 47 vezes nesse mesmíssimo período. A produtividade do trabalho também cresceu enormemente nesse mesmo tempo, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico. A população francesa era de 46 milhões de pessoas em 1960 e hoje é de 68 milhões, cresceu 47% no período. Quer dizer, o que mais cresceu entre 1960 e 2022 foi a economia, a riqueza, numa proporção muitíssimo maior que a expectativa de vida (235 vezes mais) e que a população (98 vezes mais). Onde reside então a dificuldade econômica para permitir que os anos de vida a mais dos trabalhadores sejam para viver e não para trabalhar?

Na verdade, não se trata de uma questão “técnica”, mas de uma escolha política: o crescimento da economia e o desenvolvimento científico e tecnológico beneficiarão a quem? Ao povo, aos trabalhadores, ou aos donos do capital que não querem ser tributados para pagar as aposentadorias dos pobres? Essa escolha política é definidora de que sociedade queremos, uma democrática e igualitária ou uma injusta e desigual dividida entre uma pequena minoria privilegiada e uma esmagadora maioria despossuída.

Considerando ainda que o número de postos de trabalho em proporção à população diminui apesar da economia crescer, o que cria um desemprego estrutural, e que são exatamente os trabalhadores mais velhos que tem mais dificuldade de conseguir um trabalho, fica evidente a crueldade e a natureza antipopular das “reformas da previdência” como a de Macron e o que está por trás delas. É a luta de classes, estúpido!
*Gerardo Santiago: Aposentado do BB, Ex-Diretor do SEEB/RIO, EX- Diretor da PREVI, Advogado e Militante do PCB.

sábado, 18 de março de 2023

Democracia liberal capitalista é uma fraude.

*Gerardo Santiago
O que está acontecendo na França nos mostra que a "democracia" liberal capitalista é uma fraude, um sistema político no qual o poder econômico, o dinheiro, é que manda, não o povo, como a palavra sugere. 
Diante da possibilidade de ver o seu projeto de "reforma" da previdência ser derrotado na Assembleia Nacional, Emanuel Macron apelou para o mais descarado golpismo: por meio de um artifício, uma "marretada" constitucional, passou por cima do Parlamento para impor a sua proposta goela abaixo do povo francês, por decreto. Quer dizer, quando a agenda do grande capital enfrenta uma resistência política capaz de inviabilizá-la, o "estado democrático de direito" rasga a fantasia e usa o porrete.

 Não é só isso. A luta dos trabalhadores franceses contra o ex-banqueiro convertido em presidente também desnuda a forma como a mídia corporativa mente e manipula para defender os interesses da classe dominante. Se isso estivesse acontecendo na China, em Cuba ou na Venezuela, ou em qualquer outro país que por qualquer razão incomode a ordem neoliberal global, estaríamos escutando falar em "ditadura" e "autocracia", ou não? Imaginem se fosse por exemplo Nicolás Maduro no lugar de Macron, ou que fosse a polícia chinesa agindo com a brutalidade que a francesa está utilizando.

 Imaginem se fossem centenas de manifestantes presos em Havana! Na Ucrânia em 2014, neonazistas enfrentando a polícia com coquetéis molotov eram "lutadores pela liberdade". Na França de 2023, trabalhadores e estudantes que façam a mesma coisa em defesa de direitos sociais são "vândalos" ou "delinquentes". Assim funciona a "imprensa livre", um dos pilares da "democracia" liberal, na verdade a cínica porta voz do pensamento único neoliberal. Arroubos autoritários por parte de governantes idem não são propriamente uma novidade na História da França. 

Em junho de 1789, o então rei Louis Capet ordenou a dissolução dos Estados Gerais, arremedo de Parlamento existente na época, por não estar satisfeito com os rumos que o debate tomava. 

Os deputados representantes do "terceiro estado", da população plebeia sem títulos de nobreza ou eclesiásticos, se insurgiram contra essa ordem e se mantiveram reunidos. Três semanas depois, era o povo que se insurgia e tomava a Bastilha. Começava uma revolução que mudou a França, a Europa e o mundo, além de enviar Louis Capet para a guilhotina. A lição mais importante que se pode tomar da luta do povo francês contra Macron hoje é a mesma de 1789 e da Comuna de Paris em 1871: as aristocracias, as oligarquias, as plutocracias, as classes dominantes podem ser enfrentadas e vencidas pela rebelião daqueles que elas dominam, exploram e humilham. 

Que o espírito dos "sans culottes" de 1789/94 e dos "communards" de 1871 inspire as ruas francesas de hoje. 

 * GERARDO SANTIAGO: Aposentado do BB, Ex-Diretor do SEEB/RIO, EX- Diretor da PREVI, Advogado e Militante do PCB.

domingo, 5 de março de 2023

PREVI E O MOVIMENTO SINDICAL

*Por Gerardo Santiago. O governo Lula 3 nomeou para presidente da PREVI (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) o sindicalista João Fukunaga. Ato contínuo começaram a pipocar críticas nas redes sociais e na mídia, todas no mesmo sentido: ele não serviria para o cargo porque é formado em História, fez carreira no movimento sindical e não no banco e não é "do mercado". São críticas improcedentes e de conteúdo ideológico reacionário, nada disso desqualifica o novo presidente da PREVI. É quase incompreensível desqualificar alguém por ser sindicalista em um país que tem como presidente eleito pela terceira vez um ex-líder sindical, para início de conversa. O problema não é Fukunaga ser um sindicalista nomeado presidente da PREVI, é se no exercício do cargo ele esquecer que o foi e passar a defender posições contrárias aos interesses dos trabalhadores. Não seria novidade, na verdade foi o que aconteceu nos governos petistas anteriores, quando houve gente cassada pela intervenção tucana de junho de 2002 que já em 2003, do outro lado da mesa, sustentava o que a intervenção fez, começando pelo voto de Minerva da patrocinadora, que tungou dos participantes a paridade de forças negociada no pacote reforma estatutária/acordo financeiro de 1997, ao custo da utilização de um superávit de R$ 11,1 bilhões (valores nominais da época) que tinha que ser aprovado em votação pelo Corpo Social. Houve até casos extremos de diretores eleitos da PREVI que tentaram reprimir greve de bancários na sede do fundo, houve a implementação de políticas de gestão de pessoas francamente neoliberais, copiadas daquelas adotadas no Banco de Brasil, e por aí vai. Enfim, eu não temo um sindicalista como presidente da PREVI, temo apenas que o sindicalista seja pelego. Sobre a crítica de que pode haver ingerência política na gestão dos investimentos da PREVI, é inegável que o risco sempre existe, mas atribuí-lo apenas ao PT é sacanagem. Para ficar em apenas dois exemplos, a privatização das teles, que fez a PREVI ficar com a OI, e Sauípe, que foi um prejuízo bilionário, foram obra de gestores que tinham o perfil que os críticos da nomeação de Fukunaga parecem considerar o desejável.
*GERARDO SANTIAGO é aposentado do BB, Ex-Diretor do Sindicato dos Bancários, Ex Diretor da PREVI e Militante do PCB.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Nota Política Coordenação Nacional Unidade Classista

Apesar da derrota eleitoral do fascismo, representado pela figura obscurantista de Bolsonaro, o ano de 2022 se encerra com muitos desafios à classe trabalhadora brasileira. A crise econômica, a pobreza, a fome, o desemprego, a precarização das relações de trabalho e das condições de vida se mantém e se manterão devido às consequências da crise estrutural e sistêmica do capitalismo. A vitória de Lula consagrou essa derrota eleitoral e construiu a perspectiva de um governo menos hostil, porém a agitação golpista continua e a prática da conciliação de classes petista indica que a concretização de direitos só poderá ser alcançada com a organização e pressão da classe trabalhadora. Para combater o processo de destruição da educação, saúde, previdência públicas, moradia, transporte, as contrarreformas, o teto de gastos e a precarização será necessário que estiquemos a corda e construamos as mobilizações contra o fascismo e o golpismo e pela ampliação de direitos. Para que possamos impulsioná-las é mais do que necessário construir fóruns e frentes de luta regionais, com destaque para o Fórum Sindical, Popular e da Juventude de Luta por Direitos e Liberdades Democráticas, que precisa ser enraizado em todos os estados e no distrito federal. Além disso, a crise estadunidense tem causado uma maior instabilidade geopolítica com uma crescente agressividade do imperialismo, o fortalecimento e expansão da OTAN, uma nova corrida armamentista, o ressurgimento e o fortalecimento do fascismo nos países centrais e periféricos. O crescimento do fascismo e o movimento neonazista organizado provocaram vários ataques e assassinatos recentemente nas ruas e nas escolas, ilustrando que a derrota eleitoral não intimida os fascistas e que precisamos da unidade antifascista, construindo a autodefesa da classe e a possibilidade de uma contraofensiva. Desta forma, amplia-se a necessidade de redobrarmos os esforços para construir a unidade da classe trabalhadora e promover as lutas e greves do próximo ano, avançar na ainda mais na mobilização dos trabalhadores, sindicatos, movimentos populares e a juventude nos locais de trabalho, moradia e estudo com a perspectiva do Poder Popular. Fortalecendo a luta contra as privatizações das empresas e serviços sociais públicos, por uma lei de responsabilidade social, pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, a luta pela legislação social e sindical para os trabalhadores de plataformas, a promoção da agenda socioambiental dos trabalhadores, a proteção e ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, as campanhas pela revogação de todas as contrarreformas, junto com a construção de um encontro nacional da classe trabalhadora – ENCLAT. Em resumo, devemos enfrentar ao mesmo tempo as forças da ultradireita, as políticas neoliberais, junto com os planos do imperialismo e as oligarquias locais para construirmos e enraizarmos junto aos diversos setores da classe trabalhadora a urgência das lutas e o programa imediato e histórico da classe trabalhadora. AVANTE, CAMARADAS! UNIDADE CLASSISTA, FUTURO SOCIALISTA! 28 de Dezembro de 2022 Coordenação Nacional Unidade Classista

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

A Revolução Brasileira como horizonte político concreto

Como assumir o papel histórico-político de vanguarda revolucionária? Esse é um dos grandes problemas de toda estratégia revolucionária. Por Jones Manoel – membro do Comitê Central do PCB e colunista da Revista Opera Uma das minhas frases preferidas de Leon Trótski é a que diz que as revoluções “são impossíveis, até que se tornem inevitáveis”. O jogo de palavras do comandante do Exército Vermelho, para além do lirismo, tem precisão teórica. A revolução, no cotidiano da ordem burguesa, aparece como “impossível”, uma não-possibilidade. Mas quando a avenida da revolução é aberta, e sua vitória é alcançada, se torna fácil olhar para cada lance, cada momento da política, como se fosse um passo mais para uma vitória certa do projeto revolucionário. Desde quando nascemos, aprendemos, já no seio familiar, um princípio de realidade que poderia ser resumido na clássica frase de Hegel: o real é racional. O mundo à nossa volta é naturalizado, mostrado como o único possível. Não aprendemos na família, escola, nas primeiras relações de amizade e nos diversos espaços de socialização que a propriedade privada dos meios de produção deve ser questionada, por exemplo. Desde sempre somos ensinados de que as relações constitutivas da ordem burguesa são naturais, espontâneas, fruto de uma suposta natureza humana ou então sequer pensamos nisso, vivemos no automático, adaptando-nos ao mundo como ele é, tentando sobreviver. Todo modo de produção cria ideologias que mostram seu mundo como o único possível e todas as possibilidades históricas (ou relações sociais superadas) como anomalias, desvios de rota do que é “certo”. Nesse ponto, o capitalismo não é bem uma novidade. No período feudal na Europa Ocidental, a Igreja católica dizia que a ordem estamental era uma criação de Deus, uma organização social por desígnio divino. A grande novidade do capitalismo é a centralização e concentração da produção de subjetividades, memória e horizontes políticos. Ainda ficando no exemplo da ordem feudal na Europa Ocidental, a família de então camponesa formava não só o núcleo produtivo, como também era – junto com a Igreja Católica – o principal aparelho de socialização e interiorização das normas sociais da ordem dominante. O sucesso das histórias de justiceiros das florestas que roubavam dos nobres ou a permanência da memória de revoltas camponesas, mesmo condenadas pela Igreja, davam-se porque a família mantinha um papel central na constituição de subjetividades. A família era, ao mesmo tempo, um aparelho reprodutor da ideologia dominante formulada e difundida pela Igreja Católica, mas também o espaço de uma contra-história que tinha força social para preservar padrões de subjetividade à revelia do interesse das classes dominantes. Com o capitalismo, o processo de produção de subjetividades é centralizado e ganha uma dimensão de uniformização e uma escala de massas. As televisões, cinema, mercado fonográfico, aparelho escolar, igrejas, mercado literário e afins alcançam diariamente milhões de pessoas, oferecem ideias, organizam pensamentos, cultivam alguns aspectos de memória e apagam outros, direcionam a circulação de afetos, etc. O capitalismo, em contraste com o feudalismo, tem uma rede de socialização e vida social mais rica e complexa, ao passo que a capacidade da classe dominante de controlar a produção das subjetividades é infinitamente maior na ordem burguesa do que em outros modos de produção. O controle da produção de subjetividades caminha na direção de mostrar como impossível, um ato de loucura, um delírio, a ideia de que seja possível construir uma outra forma de organização social, o comunismo. Em todos os âmbitos da vida – desde o mercado de trabalho, passando pela política eleitoral-partidária até relações de amizade/romance – há uma pressão permanente, uma coerção social, pela adequação à “normalidade”. O normal é uma gaiola fechada, um circuito de ferro, que não pode ser rompido. Ao mesmo tempo, porém, o capitalismo convive mais ou menos bem com “ilhas de anticapitalismo”. É possível existir, com registro eleitoral, um partido que defenda a revolução, professores marxistas concursados nas universidades públicas, sindicatos e movimentos sociais que dizem defender o socialismo, etc. Enquanto esses debates estiveram isolados da vida das massas e forem absorvidos pelo sistema dominante, sua existência, além de não oferecer riscos, ajuda a legitimar a ordem burguesa, atuando como base real para a ilusão de que é possível construir um “socialismo democrático” – isto é, construir o socialismo ampliando paulatinamente a democracia burguesa no Estado burguês. A famosa frase, popularizada no Brasil pela obra de Mark Fisher, de que é mais fácil “imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo” é um retrato do período histórico que vivemos, mas também uma dinâmica própria do capitalismo em todas as épocas, tendo maior ou menor força – a depender da famosa luta de classes. Em período passados, como na sequência da Revolução Russa e da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial, milhões de seres humanos imaginavam o fim do capitalismo e lutavam por isso. Foi um período histórico em que os mecanismos tradicionais de coerção e consenso da ordem burguesa perderam relativo efeito e vimos transformações radicais nos quatro cantos do mundo. Eventos como grandes crises econômicas, guerras, revoluções e revoltas generalizadas rompem a normalidade, o cotidiano, e retiram dos indivíduos, famílias, grupos e classes sociais a segurança de saber “como é o mundo”, abrindo possibilidades históricas de transformações ou regressões reacionárias. O capitalismo vive de crises e de ciclos econômicos e políticos. Nunca podemos apontar com precisão a duração do momento histórico de “estabilidade” e “normalidade”, mas é certo, assim como o sol vai nascer no dia seguinte, que esse momento sofrerá uma crise e não será eterno. Gostem ou não, a história nunca acaba e a contradição e a negatividade são inerentes à ordem burguesa. Isso significa que basta esperar o momento de ruptura do cotidiano, o momento de crise, para colocar em cena uma ampliação do horizonte político, pautando a Revolução Brasileira como agenda central? Evidentemente que não; a resposta é mais complexa que isso. Como disse, é próprio das relações sociais burguesas e de todos os seus aparelhos ideológicos e coercitivos manter a imaginação, a subjetividade, o horizonte político, a memória histórica e a consciência da classe trabalhadora nos limites da ordem burguesa, dizendo que outro mundo não é possível. Sem uma contratendência, sem uma organização ou organizações revolucionárias com certo nível de penetração de massas, com capacidade de pautar setores da sociedade, essa hegemonia burguesa será tão sólida que os momentos de crise e quebra da normalidade vão ser apenas uma oportunidade para reformular em sentido regressivo ou reacionário o sistema político e econômico. Aliado a isso, a própria crise não será vista como uma crise, mas um “novo normal”. Nesse momento, temos mais de 20 milhões de famílias brasileiras passando fome e metade dos lares brasileiros em insegurança alimentar. Os números são suficientes para afirmarmos que vivemos uma crise humanitária e de fome, mas não vivenciamos o clima de crise por não termos, nesse momento, organizações revolucionárias com suficiente força para elevar essa realidade a um dado de percepção política e subjetividade generalizada. Outro problema pode ser acrescentado. Nem toda crise econômica e política se transforma em crise revolucionária – ou crise orgânica, como diria Antonio Gramsci. O comunista italiano, inclusive, é um dos grandes responsáveis por mostrar que a crise do sistema pode ser uma oportunidade de criar uma crise revolucionária, mas não necessariamente. A mediação entre a possibilidade e a sua realização é feita pela vanguarda revolucionária que, para Antonio Gramsci, deveria estar organizada na forma de um partido revolucionário. Nesse ponto, chegamos no elemento central de nossa reflexão. Existe um fator político essencial que deve atuar como contratendência à ordem burguesa: elevar a radicalidade das lutas populares cotidianas, produzir e difundir uma teoria e cultura revolucionária, tensionar ao máximo a ordem burguesa e ser sujeito ativo na geração de uma crise política, criar capacidade mínima para em momentos necessários – como numa revolta de massas – usar táticas de ação pouco comuns (como ações armadas ou conduzir uma greve geral à revelia da repressão), ser fator de desestruturação e paralisia do Estado burguês em momentos decisivos, formar desde já os quadros políticos e organizativos que vão construir o futuro Estado proletário. Esse fator político é a vanguarda revolucionária organizada em um Partido Revolucionário. Aqui o conceito de vanguarda não é entendido como um pequeno grupo iluminado, detentor da verdade e que, como disse um profeta, traz a “boa nova”. Vanguarda revolucionária é um conceito que indica a organização de uma parte da classe trabalhadora e outros estratos sociais para ação política revolucionária, fator ativo e subjetivo de alargamento do horizonte político, sujeito da criação de uma crise revolucionária e decisivo para vitória do proletariado. Ninguém – nenhum grupo ou organização – pode-se afirmar a vanguarda do proletariado. O papel histórico de vanguarda é provado na prática, no solo concreto da luta de classes, e pode assumir diversas formas organizativas. Na Revolução Russa, o Partido Bolchevique cumpriu o papel de vanguarda revolucionária atuando para aprofundar e levar até o fim a revolução que começou em fevereiro, tendo papel central na vitória sobre a contrarrevolução (levante de Kornilov e Guerra Civil), oferecendo os principais quadros para manter o poder soviético e dirigindo o conjunto dos explorados e oprimidos. Na Revolução Coreana, Chinesa e Vietnamita, guardadas todas as suas diferenças, esse papel de vanguarda revolucionária se expressou nas frentes de resistência nacional e anticolonial com hegemonia dos Partidos Comunistas. Nessas três revoluções, a vanguarda revolucionária também teve um papel central como organizadora do dispositivo militar revolucionário. Na Revolução Cubana, como sabemos, a guerrilha liderada por Fidel Castro cumpriu o papel histórico de vanguarda, unificando as lutas, potencializando a radicalidade, acelerando a crise política do regime, colocando em tela a conquista do poder. Também tivemos experiências históricas onde a ausência de um papel de vanguarda revolucionária – ou a incapacidade política da vanguarda constituída – foram fundamentais para grandes derrotas da classe trabalhadora. O Brasil em 1964 é um belo exemplo da ausência de uma vanguarda revolucionária constituída e atuando como tal e o Chile da Unidade Popular de Salvador Allende é um exemplo da situação onde uma vanguarda revolucionária é constituída na luta, mas falha politicamente no momento decisivo de enfrentar a contrarrevolução. Nesse ponto, temos outro problema: na prática, a vanguarda revolucionária é construída numa situação não-revolucionária, no cotidiano da ordem burguesa; contudo, o papel de vanguarda revolucionária só é confirmado numa situação revolucionária, no auge do acirramento da luta de classes. Mas dificilmente chegaremos a essa situação sem a atuação daquelas forças políticas – ou força política, no singular – que podem vir a ser a vanguarda revolucionária. Parece uma tautologia ou um jogo de palavras confuso? Pode parecer, mas é um problema real. Nas palavras do historiador Eric Hobsbawm: “O problema das esquerdas revolucionárias em sociedades estáveis não é que suas oportunidades jamais se apresentaram, mas que as condições normais em que ela deve operar impedem-na de desenvolver movimentos tendentes a aproveitar os raros momentos em que é chamada a agir como revolucionária.” Como, no cotidiano da ordem burguesa e com todas as suas pressões para manter-se em um horizonte político burguês, ser sujeito ativo na criação de uma crise revolucionária e estar capacitado para aproveitar esse momento histórico que, como mostra a experiência, não acontece sempre ou com regularidade? Em suma, como assumir o papel histórico-político de vanguarda revolucionária? Esse é um dos grandes problemas de toda estratégia revolucionária. Nesse texto, apresentamos o problema. Na próxima reflexão vamos procurar debatê-lo em traços gerais nas condições brasileiras. A pergunta que fica é: como criar a vanguarda da Revolução Brasileira?