Avante Bancário

quarta-feira, 26 de maio de 2021

O tabuleiro incompleto

A intervenção da senadora Kátia Abreu (PP-TO) dirigida ao ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo na CPI da Covid dá uma boa noção do crescente isolamento das hostes governistas.

 

Ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e ex-ministra da Agricultura no segundo governo Dilma, a senadora representa parcela significativa da elite do agronegócio no país. Não a troco de nada o capitão reformado se antecipou e foi ao Mato Grosso do Sul andar a cavalo de chapéu e fazer demagogia entregando alguns títulos de terra. Já previa o que vinha pela frente.

 

A volta do ex-presidente Lula ao cenário político mudou a correlação de forças, as pesquisas de opinião demonstram isso claramente, indicando-o como favorito na corrida presidencial. Afinal, é inegável que a campanha eleitoral para o ano que vem já começou.

 

Com quase meio milhão de mortos e cerca de 16 milhões de infectados pela Covid, o Brasil enfrenta a pandemia de maneira descontrolada em nível nacional devido a absoluta ausência de políticas públicas calcadas na ciência. Reiteradamente o governo federal e seus parceiros em nível estadual e municipal se recusam a adotar medidas implantadas em diversos países com resultados positivos.

 

Juntam-se a esse quadro 14,5 milhões de desempregados que somados aos subocupados totalizam cerca de 32 milhões de trabalhadores, mais de 40% da População Economicamente Ativa (PEA). É um recorde histórico conseguido pelo atual governo: o povo passando fome e vivendo na miséria. E o que o governo faz: destina um auxilio emergencial de R$ 150,00 mensais. Ou seja, se o povo comprar gás ou pagar as contas de luz e água não compra comida. Se comprar comida não paga nenhuma das três contas. Até o Banco Mundial, escaldado em mascarar a realidade para proteger o capital, preconiza um total de R$ 440,00 mensais.

 

Em verdade, “116,8 milhões de brasileiros não tinham acesso pleno e permanente a alimentos. Desses, 43,4 milhões (20,5% da população) não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estavam passando fome (insegurança alimentar grave)”, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, em pesquisa realizada no final do ano passado.

 

A economia como um todo vai mal. É óbvia a queda no consumo e, portanto, na produção, a exacerbada concentração de renda se mantém inabalável, algumas grandes empresas deixaram o país, há o incremento de atividades ilegais, vide o meio ambiente e as milícias, além do isolamento internacional e problemas com o maior parceiro comercial do país, a China (vide a soja), e tantos outros fatores que tornam a atual conjuntura de extrema dificuldade para o atual governo e sua prioridade: a reeleição.

 

Diante desse quadro o sempre presidenciável coronel nordestino chamou para si a tarefa de oposição ao Lula e se aproximou da direita, com destaque para ACM Neto, todo poderoso do DEM. Procura desbancar o governador de São Paulo e ser o candidato da direita, isolando ainda mais o capitão reformado.

 

Essa mesma política econômica, entretanto, implica em substancial apoio ao governo, tanto pela retirada dos direitos dos trabalhadores e do povo, quanto pelas privatizações de setores estratégicos altamente lucrativos, as “meninas dos olhos” do grande capital.

 

A privatização da Eletrobrás é criminosa, não só pelo papel estratégico que ela representa, mas pelas condições arroladas, uma verdadeira doação, não só pela produção e distribuição de energia, mas pelo imenso volume de água doce envolvido. É um crime de lesa-pátria e de lesa-humanidade.

 

A própria mídia empresarial, em grande parte, deixa claro o quanto a agenda econômica coesiona a burguesia. Crítica do governo em suas ações diante da pandemia é uníssona em apoiar as medidas de interesse do grande capital.

 

Cabe destacar que a agenda econômica também favorece as Forças Armadas, as milícias e as seitas neopentecostais (aí com algumas divergências dentre a burguesia), além de alguns setores da pequena burguesia, bases da sustentação política do atual governo.

 

Ainda assim o desgaste do governo é evidente, não há indicador de que vá mudar, apesar de no Brasil atual nada mais ser considerado surpresa.

 

O tabuleiro político começa a se definir, as peças estão se movendo em busca de ampliar seus espaços e obter mais adeptos.

 

A única novidade é a candidatura do deputado federal Glauber Rocha (PSOL-RJ), parlamentar combativo e um dos melhores, quiçá o melhor parlamentar em nível nacional. A proposta visa coesionar a esquerda em um programa de verdadeiras mudanças, não somente de derrota do genocídio, apesar desta ser prioritária.

 

Infelizmente, a principal peça ainda está apartada do jogo, ocupa um pequeno espaço no canto do tabuleiro. Caberia e cabe às forças progressistas dedicarem todos seus esforços e ações para incrementar e fortalecer a ação dos trabalhadores e das massas populares, a fim de assumirem seu papel de protagonistas.

 

O Chile é um ótimo exemplo!

 

Afonso Costa

Jornalista



quarta-feira, 31 de março de 2021

Abaixo a ditadura de Afonso Costa

O descaso do Governo Federal para com a vida e a saúde dos brasileiros levou o capitão reformado ao maior desgaste desde o início da sua gestão. O inconformismo advém das mais de 300 mil mortes, dos mais de 12 milhões de infectados, da dor e sofrimento de suas famílias e amigos.

Mas vem também da pior gestão econômica no país desde os tempos da ditadura empresarial-militar. O Brasil está em recessão, o desemprego e o subemprego bateram recordes, a fome e a miséria assolam grande parte da população, o comércio sobrevive a duras penas, a indústria, no geral, também paga o pato, e até mesmo o agronegócio, há muito a ponta de lança da economia, sente as consequências de uma política externa descabida, da falta de diplomacia, do reflexo de toda a realidade nacional.

Até os bancos perdem, e isto pode explicar a carta pública dos banqueiros e economistas, e a aproximação deles com os presidentes do Senado e da Câmara: na última sexta (26 de março), foi anunciado que Bradesco, Santander e Itaú tiveram quedas de 2,6%, 10,3% e 11,7% em valor de mercado neste ano, respectivamente.

O teto de gastos, a remuneração da sobra de caixa dos bancos, os estapafúrdios juros e amortizações da dívida pública, as benesses para o grande capital, a privatização e desmonte das estatais coroam essa política econômica, filha dileta da crise do capital em nível nacional e internacional.

Outro fator determinante para o aguçamento da crise é a reentrada do Lula no cenário político. Enquanto o ex-presidente defende a vida e acordos com capital, o atual presidente faz campanha pela morte e é subserviente aos interesses mais predatórios da extrema-direita, da qual faz parte.

O capitão reformado contava com a confirmação da condenação do Lula, conforme deixou claro em entrevista. Foi surpreendido com a decisão favorável ao ex-presidente e mais ainda com seu discurso, no qual fica evidenciada a diferença entre ambos: o primeiro é um estadista, por mais que haja divergências frente a ele; o segundo não serve nem para capitão de time de jogos eletrônicos.

Obviamente, esse quadro traz consequências, daí a iniciativa de tentar se fortalecer, ceder ainda mais para o centrão e a reforma ministerial em curso, com a troca de posições-chaves no governo por pessoas de sua absoluta confiança, que pode sinalizar a tentativa de golpe, já cogitado outras vezes, desta feita apelando para o estado de sítio, justamente contra medidas adotadas por alguns governadores e prefeitos para salvar vidas. Tudo o que esse governo não faz! A falta de vacinas é imperdoável, assim como estimular aglomerações e a não utilização da máscara de proteção. O negacionismo não prevalece sobre os fatos, sobre a ciência.

Cabe ressaltar que o capitão reformado não propugna a morte à toa, é um projeto antigo do capital: reduzir a população do Terceiro Mundo a fim de garantir recursos naturais para os países centrais do capitalismo e seus aliados. Nada em seu teatral comportamento é à toa, utiliza suas parvoíces para tirar o foco de fatos importantes, desfavoráveis a sua conduta a frente do governo.

A tentativa de golpe, tudo indica, não encontra eco em parte das Forças Armadas, da mídia empresarial, de setores conservadores e até mesmo do capital; daí a dificuldade de eventual êxito, ainda que, no Brasil de hoje, tudo seja possível.

Há 36 anos acabou a ditadura empresarial-militar. Assassinatos, tortura, corrupção, subserviência ao capital, principalmente o estrangeiro, corroborados por drástica redução dos direitos dos trabalhadores e do povo em geral são algumas das cicatrizes que ficaram em nossa história. Que não se repita nunca mais. Abaixo a ditadura!

 Afonso Costa é jornalista.

Fonte: https://monitormercantil.com.br

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

NOTA POLITICA DA UNIDADE CLASISTA

Apesar da derrota eleitoral do fascismo, representado pela figura obscurantista de Bolsonaro, o ano de 2022 se encerra com muitos desafios à classe trabalhadora brasileira. A crise econômica, a pobreza, a fome, o desemprego, a precarização das relações de trabalho e das condições de vida se mantém e se manterão devido às consequências da crise estrutural e sistêmica do capitalismo. A vitória de Lula consagrou essa derrota eleitoral e construiu a perspectiva de um governo menos hostil, porém a agitação golpista continua e a prática da conciliação de classes petista indica que a concretização de direitos só poderá ser alcançada com a organização e pressão da classe trabalhadora. Para combater o processo de destruição da educação, saúde, previdência públicas, moradia, transporte, as contrarreformas, o teto de gastos e a precarização será necessário que estiquemos a corda e construamos as mobilizações contra o fascismo e o golpismo e pela ampliação de direitos. Para que possamos impulsioná-las é mais do que necessário construir fóruns e frentes de luta regionais, com destaque para o Fórum Sindical, Popular e da Juventude de Luta por Direitos e Liberdades Democráticas, que precisa ser enraizado em todos os estados e no distrito federal. Além disso, a crise estadunidense tem causado uma maior instabilidade geopolítica com uma crescente agressividade do imperialismo, o fortalecimento e expansão da OTAN, uma nova corrida armamentista, o ressurgimento e o fortalecimento do fascismo nos países centrais e periféricos. O crescimento do fascismo e o movimento neonazista organizado provocaram vários ataques e assassinatos recentemente nas ruas e nas escolas, ilustrando que a derrota eleitoral não intimida os fascistas e que precisamos da unidade antifascista, construindo a autodefesa da classe e a possibilidade de uma contraofensiva. Desta forma, amplia-se a necessidade de redobrarmos os esforços para construir a unidade da classe trabalhadora e promover as lutas e greves do próximo ano, avançar na ainda mais na mobilização dos trabalhadores, sindicatos, movimentos populares e a juventude nos locais de trabalho, moradia e estudo com a perspectiva do Poder Popular. Fortalecendo a luta contra as privatizações das empresas e serviços sociais públicos, por uma lei de responsabilidade social, pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, a luta pela legislação social e sindical para os trabalhadores de plataformas, a promoção da agenda socioambiental dos trabalhadores, a proteção e ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, as campanhas pela revogação de todas as contrarreformas, junto com a construção de um encontro nacional da classe trabalhadora – ENCLAT. Em resumo, devemos enfrentar ao mesmo tempo as forças da ultradireita, as políticas neoliberais, junto com os planos do imperialismo e as oligarquias locais para construirmos e enraizarmos junto aos diversos setores da classe trabalhadora a urgência das lutas e o programa imediato e histórico da classe trabalhadora. AVANTE, CAMARADAS! UNIDADE CLASSISTA, FUTURO SOCIALISTA! 28 de Dezembro de 2022 Coordenação Nacional Unidade Classista

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

TODOS PELA VOLTA DO AUXÍLIO EMERGENCIAL

 A UNIDADE CLASSISTA vem se somar aos diversos movimentos e organizações sociais que lutam pela sobrevivência e dignidade da classe trabalhadora e da população em geral exigindo o Retorno do Auxílio Emergencial. 

O Auxílio Emergencial foi uma política de distribuição de renda fomentada pelas organizações de esquerda, movimentos sociais e opositores ao governo genocida de Jair Bolsonaro. Graças a pressão popular, conquistamos o valor de R$ 600,00 aprovado pelo Congresso Nacional (dobrando o valor proposto pelo governo).

http://unidadeclassista.org.br/geral/todos-pela-volta-do-auxilio-emergencial/

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

As primeiras lutas do proletariado brasileiro

 

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Antonio Carlos Mazzeo *

O processo de industrialização no Brasil encontra impulso no fim do século XIX e estabelece um enorme fluxo imigratório ― quando, somente em dois anos, entre 1888 e 1900, cerca de 1,4 milhão de pessoas chegam ao país, das quais 890 mil se fixam em São Paulo ― que atesta um desenvolvimento econômico ímpar, entre 1885 e 1906, se levarmos em conta a crise econômica estadunidense (entre 1893 e 1897) e a estagnação da economia argentina por toda a década de 1890. Esses imigrantes serão absorvidos pela nascente indústria brasileira, assim como pelas atividades agrárias.

A partir de 1907 até 1920, a industrialização atinge altos índices, delineando assim, um rápido processo de modernização – ainda que centrado nos núcleos urbanos mais importantes do país – de um capitalismo que até ali se tinha fundamentado em bases essencialmente rurais. Conforma-se, desse modo, um novo espectro do contingente dos trabalhadores dos grandes centros urbanos nacionais, onde misturam-se imigrantes e migrantes, em que os imigrantes serão a maioria. Nessa Babilônia proletária, onde se falam diversas línguas e mesclam-se diferentes culturas e etnias, chegam também, juntamente com o proletariado do outro continente, as formas ideo-organizativas sindicais e políticas, como o anarcossindicalismo. Indiscutivelmente, essa vertente anarquista hegemonizava o pequeno movimento operário brasileiro, não esqueçamos, ativo nos grandes núcleos urbanos, justamente onde estavam as fábricas de um incipiente processo industrializador1.

Nesse contexto começa também a aflorar o movimento dos trabalhadores, refletindo as mudanças que ocorriam na base material da sociedade brasileira. Já no fim do século XIX, verificam-se diversos movimentos grevistas de caráter operário, entre os anos de 1890 e 1898, principalmente no eixo São Paulo – Rio de Janeiro, mas também, nos estados da Bahia e Minas Gerais. Mas é a partir do século XX que as movimentações operárias começam a ganhar maior intensidade, expressando seu aumento quantitativo e, de certa forma, qualitativo.

No âmbito histórico de uma sociedade como a brasileira, sem tradição democrática determinada pela escravidão, o pacto burguês de vezo prussiano-colonial2 reduz mais ainda a política a seu intrínseco elemento onto-negativo de controle social e de classe, ganhando dimensões desconstrutoras e alienantes nas relações institucionais e na própria realidade concreta, determinadas não somente por uma sociedade cerrada pelo próprio caráter do pacto burguês, isto é, pela manutenção de um bloco hegemônico ainda centrado em seu núcleo socioeconômico agroexportador, como pela fragmentação determinada pelo regionalismo. De fato, desde a formação do Estado Nacional brasileiro a construção de uma “sociedade-civil”/sociedade burguesa (bürguerliche Gesellchaft, como definia Marx,), nos moldes liberais burgueses será permeada pela contradição estrutural de um liberalismo convivendo com a escravidão e com o “sentido histórico” do ser precisamente assim de uma formação social de extração colonial que não rompe com seu passado estrutural e que ao contrário, o reafirma permanentemente ajustando-o aos movimentos e às transformações da economia internacional, integrando-se à ela de forma complementar e subalterna. Até a abolição do trabalho escravo a contradição fundamental das relações sociais da sociedade brasileira foi nucleada pela relação escravo-senhor, ainda que já, a partir da segunda metade do século XIX, despontem também as contradições com os trabalhadores assalariados nos centros urbanos.

Com a desestruturação da escravidão/forma-trabalho-forçado e a instituição do trabalho livre, essa contradição ganha novas dimensões, seja na tradicional relação entre os fazendeiros e os trabalhadores rurais – em suas diversas formas laborais –, seja naquelas que se desenvolvem de maneira moderna nas fábricas e oficinas do país. Ambas, no entanto, sofriam as agruras da tradição escravista-colonial, quer dizer, da prevalência de séculos de uma economia assentada sobre o trabalho-forçado, onde o direito regulador do trabalho se materializava no direito da propriedade sobre o trabalhador escravizado.

De certo modo, essa cultura estendia-se para os segmentos “médios” da sociedade brasileira, também eles caudatários e inseridos nessa forma de liberalismo particularizado, “fora e dentro do lugar”, porque produto de um Ocidente incompleto e de uma ordem burguesa “anômala”3, em que o liberalismo servia de instrumento ideológico para uma economia fundada na hegemonia agroexportadora de vezo político autocrático-burguês, que agravava a dissimulação da intrínseca violência da exploração do trabalho assalariado. Aqui o liberalismo da particularidade brasileira ganha os elementos constitutivos do favor, uma forma-ideologia nascida com a escravidão, como pioneiramente assinalou Sérgio Buarque de Holanda4, que emaranha na teia do poder oligárquico-burguês não somente os escravos, mas também os homens livres, em um mecanismo pelo qual se reproduz a classe dominante nas relações sociais5.

A particularidade histórica da sociabilidade brasileira e a tradição autocrática de uma burguesia prussiana/transformista (Lênin/Gramsci), que sempre assumiu um projeto de construção capitalista subordinado ao conjunto hegemônico do capitalismo internacional e, posteriormente do imperialismo, configurou uma forma societal cuja classe dominante atuou permanentemente como repressora dos movimentos sociais para garantir seu projeto de modernização-conservadora e “pelo-alto”, sem o povo e contra ele. Isso significa dizer que desde seus primórdios, a burguesia brasileira tratou as questões sociais como “caso de polícia” ou melhor dizendo, como um “perigo” a ser reprimido. Essa trajetória sócio-histórica conforma a via prusiano-colonial de desenvolvimento do capitalismo brasileiro e, como consequência, sua bürguerliche Gesellchaft incompleta e subsumida à autocracia burguesa, seja em sua forma bonapartista (ditadura explícita), seja em sua forma de legalidade burguesa de autocracia institucionalizada que, após os governos bonapartistas de Deodoro e Floriano, vigeu na Primeira República, até o golpe de 19306.

Não restam dúvidas de que foi o movimento operário, e especialmente sua corrente anarcossindicalista – mesmo considerando todos os limites de uma perspectiva muito mais ético-política que revolucionária e de vezo radical-pequeno-burguês – o primeiro a colocar no centro da vida política brasileira a ausência de liberdades democráticas, numa sociedade apenas saída do horror da escravidão, mas onde continuava presente a mentalidade de seu passado escravista. A difusa ação anarquista tenta conectar sua linha de ação direta, no plano da luta prática, à intenção idealista por princípio, de incrustar na racionalidade industrial em precipitação – que dissolvia as relações sociais arcaicas – , um conteúdo ideológico cientificista, laico e evolucionista que se de um lado, ganhava competência na atração de setores intelectuais pequeno-burgueses não pertencentes ao proletariado, por outro dispersava o núcleo central da luta de classes em lutas genéricas com a permanente recusa da construção de mediações e táticas políticas para o movimento operário e a ineficácia de elaborar uma análise substancial da realidade sócio-histórica brasileira. Mas o fundamental é que com o desenvolvimento industrial no Brasil engendra-se um proletariado moderno, ainda que restrito a algumas cidades. Nesse contexto, a nascente classe operária brasileira constitui-se na maior novidade histórica do Brasil.

Na primeira década dos Novecentos havia mais de mil organizações operárias e combativas nos principais centros industriais brasileiros, como gráficos, sapateiros, metalúrgicos, chapeleiros, têxteis e pedreiros. Na sua vanguarda, os proletários urbanos. Eclodem greves importantes com excelentes saltos organizativos. “De 1906 a 1922, quando da fundação do PCB, foram realizadas inúmeras manifestações e greves operárias, como as movimentações de 1905, no Rio de Janeiro e em São Paulo de metalúrgicos, portuários (estes em paralisação simultânea nos dois estados), trabalhadores do setor do gás, todas elas pela redução da jornada de trabalho. A partir de 1906, as greves ganham maior intensidade […] Somente entre os anos de 1903 e 1916, as principais cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife, presenciaram cerca de 84 greves […] Sem dúvida, essas movimentações resultarão no acúmulo organizativo e político que desaguará nas grandes greves operárias de 1917, que se constituirão no início do apogeu e da crise do anarquismo no movimento operário brasileiro”7.

1 Para se ter uma ideia, segundo dados históricos levantados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), São Paulo, de 239.820 habitantes em 1900, passa a ter 579.033 habitantes em 1920, e o Rio de Janeiro, nos períodos correspondentes, de 811.443 habitantes para 1.157.873 habitantes. O Brasil, como um todo ― ainda nos mesmos períodos ―, salta de 17.438.434 para 30.635.605 habitantes “População Residente, Segundo os Municípios das Capitais – 1871-1991”, Anuário Estatístico – IBGE, 1993, p. 2-7 a 2-9.
2 “O aspecto ‘prussiano’ aparece, assim, no sentido da caracterização de um processo tardio de acumulação de capital, consagrado na análise lenineana como uma forma de desenvolvimento burguês, que se enquadra nas grandes tendências gerais de análise da entificação do capitalismo. Pensamos então, que, para melhor conceituar o processo brasileiro, a noção de via prussiano-colonial é a que expressa sua geneticidade, porque respeita a legalidade histórica de sua condição colonial e, ao mesmo tempo, considera a configuração tardia […] e agrária do processo de acumulação e posterior industrialização do Brasil.” A.C. Mazzeo, Estado e Burguesia no Brasil – Origens da Autocracia Burguesa, SP, Boitempo, 3ª edição, 2015 – 3ª reimpressão de 2020, p. 105.

3 Aqui no sentido da especificidade das formas particulares do capitalismo nas colônias americanas. Na definição de Marx: “[…] Que os donos das plantações na América não só os chamemos agora de capitalistas, senão que o sejam, se baseia no fato de que eles existem como uma anomalia dentro de um mercado mundial baseado no trabalho livre”, K. Marx, Elementos Fundamentales para la Crítica de La Economía Política ( Grundrisse) 1857-1858, México, Siglo XXI, 1986, pág. 476 ( Formen)

4 S. B. de Holanda, Raízes do Brasil, RJ, José Olympio Ed., 1976, pág. 41 e segts.

5 op. cit., pág. 65. Como definiu Schwarz : ”Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou no conjunto a existência nacional ressalvada sempre a relação produtiva de base, assegurada pela força. Esteve por toda parte, combinando-se às mais variadas atividades, mais ou menos afins dele como administração, política, indústria, comércio, vida urbana, Corte etc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, as qualificações operárias, como a tipografia, que na acepção europeia, não deviam nada a ninguém, entre nós eram governadas por ele. E assim como o profissional dependia do favor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário depende dele para a segurança de sua propriedade, e o funcionário para o seu posto. O favor é a nossa mediação quase universal – e sendo mais simpático do que o nexo escravista, a outra relação que a colônia nos legará, é compreensível que os escritores tenham baseado nele a sua interpretação do Brasil, involuntariamente disfarçando a violência, que sempre reinou na esfera da produção.” Roberto Schwarz, Cultura e Política, SP, Paz e terra, 2005, págs. 65 – 66. (grifos do autor)

6 “Mantendo a tradição inaugurada em 1822, a burguesia proclama a República, longe das massas populares. A tradição prussiana da classe dominante articula, ‘pelo alto’, o golpe de Estado que implanta o regime republicano e uma ditadura militar no país, como conclusão de um processo modernizador iniciado na segunda metade do século XIX, expressando, assim, o apogeu da burguesia do café. Novamente a saída bonapartista é posta em prática. O exército, como instituição, é chamado para representar a ‘vontade coletiva’ do povo brasileiro. Os governos militares, Deodoro e Floriano, representaram justamente a instituição do bonapartismo-colonial, para manter o latifúndio agroexportador e a consequente dependência do país em relação à Inglaterra. [….] Feita a transição para um governo civil – com a eleição de Prudente de Moraes, em 1894 – a burguesia agrária plenamente dona do poder, apenas eliminará o bonapartismo, mantendo, no entanto, através de eleições manipuladas e fraudulentas, o alijamento das massas populares da vida nacional, confirmando, desse modo, a autocracia e o prussianismo colonial do Estado e do capitalismo brasileiros, pelos 41 anos da República Velha.” A.C.Mazzeo, Burguesia e Capitalismo no Brasil, SP, Ática, 1995, 2ª edição, pág.26.

7 A.C.Mazzeo, Sinfonia Inacabada – a política dos comunistas no Brasil, SP/Marília, Boitempo/Unesp-Marília publicações, 1999, págs. 17 e 18 (grifado no original)

* Antonio Carlos Mazzeo é Professor de História Econômica, FFLCH USP/Filosofia das Ciências PUC-SP e membro do Comitê Central do PCB

Fonte: pcb.org.br

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

MAIS UM ATAQUE DO (DES)GOVERNO BOLSONARO – FECHAR 361 UNIDADES DO BANCO DO BRASIL E PRETENDE DESLIGAR 5 MIL FUNCIONÁRIOS

O (des)governo Bolsonaro preocupado em atacar o funcionalismo público e na sanha de realizar a agenda privatista do ministro Paulo Guedes, acaba de lançar um documento – um comunicado público à Comissão de Valores Mobiliário (CVM), comissão que é responsável pela fiscalização, normas, disciplina e pelo desenvolvimento do mercado de valores mobiliários no Brasil, sobre sua reestruturação.

O documento intitulado de Fato Relevante, o Banco do Brasil comunica uma reestruturação totalmente prejudicial para os funcionários do BB.

Segue trechos do documento:

“I – Desativação de 361 unidades, sendo 112 agências, 7 escritórios e 242 Postos de Atendimento (PA). II – Conversão de 243 agências em PA e outros 8 PA serão transformados em agências. III -. Transformação de 145 unidades de negócios em Lojas BB, sem a oferta de guichês de caixa, com maior vocação para assessoria e relacionamento. IV – Relocalização compartilhada de 85 unidades de negócios.V – Criação de 28 unidades de negócios, sendo 14 Agências Especializadas Agro e 14 Escritórios Leve Digital (unidades especializadas no atendimento a clientes com maturidade digital), com aproveitamento de espaços existentes, não envolvendo contratação ou locação de novos imóveis.”

“Foram aprovadas ainda, duas modalidades de desligamento incentivado voluntário aos funcionários: o Programa de Adequação de Quadros (PAQ), a fim de otimizar a distribuição da força de trabalho, equacionando as situações de vagas e excessos nas Unidades do banco, e o Programa de Desligamento Extraordinário (PDE), disponível a todos os funcionários do BB que atenderem aos pré-requisitos. Os Programas possuem regulamentos específicos que estabelecem as regras para adesão.

A estimativa do BB é que cerca de 5 mil funcionários venham a aderir aos dois programas de desligamento.”


Esse comunicado não anuncia apenas um ataque contra os funcionários do BB, mas se configura como mais uma ação para destruir a soberania nacional e atender a sanha privatista do capital financeiro que Guedes representa.

NÃO AO ESVAZIAMENTO DO BB!

UNIDADE CLASSISTA – FRAÇÃO BANCÁRIA NACIONAL