Avante Bancário

domingo, 15 de maio de 2016

UNIDADE CLASSISTA APOIA CHAPA 4 NA FUNCEF (com ressalva)


Colega da Caixa:

A partir de segunda-feira próxima 16/04, começam as eleições para a nossa Fundação de previdência, a FUNCEF. Nós, da Unidade Classista, entendemos que, das chapas concorrentes, a CHAPA 4 – Independência e conhecimento na FUNCEF é a que reúne companheiros do sindicalismo combativo e classista na Empresa, têm uma visão crítica da atual gestão e defendem a participação organizada dos funcionários na gestão dos recursos.

Para nós da Unidade Classista, a Chapa 5 (“situação”) é apenas mais do mesmo, e representa a continuidade de uma gestão sem transparência, ligada umbilicalmente ao sindicalismo da Contraf/CUT e do Sindicato do Rio, sindicalismo esse chapa-branca do governo petista que acabou de ser apeado. Nunca é demais lembrar que a diretoria lulodilmista da FUNCEF aprovou, entre outros investimentos ultraquestionáveis, aplicação de nossos recursos em Belo Monte (um problemaço socioambiental), Sete Brasil (a fornecedora de sondas para a Petrobrás criada por gente envolvida no “petrolão” e que se tornou um baita mico) e Invepar (a problemática dona do Metrô e do VLT do Rio).

Já as demais chapas (1, 2, 3, 6 e 7) todas têm uma visão tecnocrática dos problemas e da gestão da FUNCEF. Lembremos que a Chapa 7 é composta pelo mesmo grupo que ganhou a eleição passada e também não praticou nenhuma transparência nem incentivou a particpação dos empregados, e a Chapa 6 é assumidamente “impichista” (que garantia de independência podemos ter com esse pessoal junto a uma nova Diretoria indicada por Temer?).

Você deve ter estranhado nosso título “apoio com ressalva”. Vamos esclarecer: nossa ressalva não é em relação aos colegas da Chapa 4 e seus compromissos e propostas – nossa ressalva é em relação à propria FUNCEF.

Explicando melhor, você deve ter percebido que as diversas chapas discutem e divergem qual deve ser o investimento prioritário: renda variável (Bovespa), investimentos estruturados (particpação em bloco de controle de empresas), imóveis ou renda fixa. Para nós da Unidade Classista, essa “polêmica” é pobre e superficial, e mascara a verdadeira questão de fundo.

A questão de fundo é que a Caixa nos vendeu a imagem da FUNCEF como algo que ela não é. Quando entramos pra Caixa, nos disseram que a FUNCEF era a “garantia de nosso futuro, de uma complementação que assegurasse uma aposentadoria digna”. Mas a crise é pedagógica – e a crise da FUNCEF demonstra que fundo de pensão não é garantido: o investimento de nossos recursos pela FUNCEF é aplicação capitalista de mercado, e como toda aplicação capitalista de mercado... TEM RISCO!

Aí a “discussão” sobre “melhor aplicação de recursos” torna-se surrealista, pois passamos a “pensar apenas no nosso umbigo” e desconsideramos o que é melhor para os trabalhadores e pro povo brasileiro”, que também somos nós.

Exemplo: se priorizarmos imóveis, estaremos torcendo pelo aumento da especulação imobiliária; se priorizarmos renda fixa, vamos torcer para que a Taxa SELIC continue em níveis estratosféricos; se priorizarmos investimentos estruturados, estaremos torcendo para que os trabalhadores das obras de Belo Monte e do VLT não façam greve para não “desvalorizar nosso investimento”; se priorizarmos Bovespa, vamos torcer pelo aumento dos ganhos na especulação financeira.

A Unidade Classista apoia a Chap 4 na FUNCEF, mas não disseminamos ilusões: o capitalismo nunca é bom para os trabalhadores.

UNIDADE CLASSISTA BANCÁRIA

terça-feira, 10 de maio de 2016

BANCO DO BRASIL PREPARA ATAQUE PESADO AO FUNCIONALISMO

O governo de Dilma Rousseff , no apagar das luzes, vem tomando várias medidas em favor do grande capital que incluem desde privatizações até ataques aos direitos trabalhistas. Dentro deste contexto, o funcionalismo do Banco do Brasil, assim como os demais bancários, não será poupado.
Nas últimas semanas tem sido realizadas reuniões com a gerência média do BB nas quais, além do tradicional anúncio das novas desafiadoras (leia-se inatingíveis) metas, vem sendo anunciado, sem meias palavras, o plano do banco de retirar das agências do varejo todas as carteiras PF e PJ e centralizá-las nas chamadas agências de negócios.
O funcionalismo especula freneticamente sobre as consequências desta mudança. Pois bem, vamos acabar com as especulações.
 
 
 
DESCOMISSIONAMENTOS E DEMISSÕES À VISTA
 
Está claro, mesmo para os mais otimistas, que a migração das carteiras (o verdadeiro "filé" das agências), para as agências de negócios, significará uma redução brutal no potencial de negócios das unidades e, consequentemente, da sua rentabilidade.
Diante desta constatação não é difícil concluir que o passo seguinte será o fechamento em massa de agências e uma redução drástica de pessoal.
Considerando que o plano do banco é de que todas as carteiras tenham migrado até 2018, não é razoável esperar que esta diretoria, que já promoveu a reestruturação ou, melhor, a desestruturação do CSL e da GECEX, com descomissionamentos e transferências compulsórias de centenas de funcionários, vá promover estas mudanças sem atacar violentamente o funcionalismo.
É óbvio que não haverá um lugar ao sol para todos nos "Oasis" das agências de negócios. Na verdade está muito evidente que a intenção é o fechamento de centenas de agências e, falando francamente, descomissionamentos e demissões.
 
DIREÇÕES INOPERANTES DESMOBILIZAM A CATEGORIA
 
Por outro lado a maioria dos sindicatos de bancários ligados à CONTRAF/CUT vem cada vez mais conduzindo as campanhas salariais de forma burocrática e antidemocrática. Deflagram a greve sem que a categoria tenha a oportunidade de discutir a sua organização, as suas fragilidades e as melhores estratégias para enfrentá-las. A greve é aprovada em assembleia única, sem que seja dada oportunidade dos bancários se manifestarem. Tudo isso dá aos bancários que se dispõe a participar das assembleias a impressão de que tudo não passa de uma encenação que possui um "script" pré-definido e imutável. A consequência é que as g reves tem sido deflagradas em assembleias cada vez mais esvaziadas.
 
A inoperância da direção majoritária dos bancários, hoje representada pela CONTRAF/CUT, é evidente. Tanto que diante desta ameaça as principais direções sindicais, entre elas a do SEEB-RJ, não foram capazes de convocar assembleias para denunciar este projeto do banco e preparar a categoria para resistir.
 
A deliberada desmobilização promovida pela CONTRAF/CUT, tem levado  o funcionalismo a perder a confiança na sua organização. Estes colegas que há alguns anos eram a vanguarda das lutas da categoria bancária, aderindo em massa à greve, constituindo o exército de piqueteiros, garantindo o fechamento de importantes prédios e agências de bancos privados, hoje passaram de protagonistas da sua luta a meros espectadores, mal comparecem às assembleias e, os poucos que aderem à greve, limitam-se a acompanhar o seu andamento pela internet. É preciso mudarmos esta situação.
  
SEM LUTA O BANCO NÃO RECUARÁ.
 
Diante da ameaça que paira sobre as nossas cabeças não podemos apenas torcer pela boa vontade da direção do banco. Temos que ter claro que sob este governo ou sob qualquer governo que venha a substituí-lo este movimento de enxugamento do quadro funcional seguirá o seu curso.
Precisamos ter claro que apenas a nossa luta e organização poderá forçar o banco a recuar dos seus planos. É preciso resgatarmos a organização por local de trabalho, resgatar a figura do delegado sindical como referência da luta nas agências e, mais do que tudo, é preciso sairmos da apatia na qual estamos mergulhados há alguns anos e começarmos a participar mais ativamente da vida sindical da categoria.
A ameaça é real e imediata e a nossa resposta não pode ser diferente.
 
Para começarmos a construir a resistência a estes ataques propomos o seguinte:
 
- Imediata convocação de assembleia dos funcionários do BB em todo o país;
 
- Liberação dos delegados sindicais já eleitos para a participação em reuniões para discutir as estratégias para a luta;
 
- Eleição de delegados sindicais nas unidades onde não haja delegado eleito aproveitando para discutir com os colegas sobre as ameaças do banco;
 
- Organização de reuniões por local de trabalho, se necessário, com a participação de representantes sindicais;
 
Cremos que estas medidas são um passo importante na nossa reorganização, mas a vitória depende de todos nós.
 
Vamos à luta BB!!
 
 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

“Dirigimo-nos para um governo chantagista que vai implantar o programa da grande rapinagem”

O Senado já aprecia o processo de impeachment de Dilma, que por sua vez parece se concentrar em promover gestos finais de despedida, em especial por conta de envios de projetos de lei de viés progressista que jamais estiveram em pauta quando a vida parecia normal. De toda forma, continuam obscuros alguns pontos que ativaram a ofensiva dos setores dominantes pelo fim de seu mandato e, ao passo que os alguns líderes discutem o eventual governo de transição, o Correio publica entrevista com a historiadora Virgínia Fontes.

“Tem algo muito estranho na origem do processo que deve nos deixar em alerta, pois a situação não está completamente clara. Parece que há tensões em setores dominantes. Tensões entre o ‘clube do milhão’ e o ‘clube do bilhão’, uma vez que as estruturas representativas do setor empresarial são muito mais voltadas ao primeiro do que ao pequeno grupo de grandes empresas bilionárias, constituídas desde o processo de privatizações da era FHC. E não está claro o que tudo isso significa”, disse.

Nesse sentido, Virgínia afirma que está na ordem do dia o desafio de uma melhor interpretação a respeito das características regionais das diversas frações da burguesia brasileira, o que ajuda a explicar a primazia do PMDB na mediação do jogo de interesses que costuma excluir os interesses das maiorias das grandes decisões.

“O PMDB assume centralidade diante da impotência do PT em ser de fato um partido de esquerda e do PSDB de ser algo além de expressão regional de uma certa burguesia, enclausurada em São Paulo, Minas Gerais e um pedaço do Paraná, enquanto as burguesias brasileiras são mais amplas. Temos o desafio de entender a regionalização da grande burguesia, as estratégias das suas estruturas representativas e o fato de que seu conjunto tenha adotado todos os partidos ao longo dos anos”, explicou.

Além de explorar a questão das disputas intercapitalistas, nacionais e internacionais, Virgínia não deixou de abominar o que considera um autêntico golpe – a seu ver já consumado na prática – marcado pelo “espetáculo inadmissível” da votação dos deputados em 17 de abril. Por fim, enfatiza que abrem-se as porteiras para um ciclo de exploração capitalista praticamente sem limites e leis.

“Estamos nos dirigindo para um governo capitaneado por um grupo chantagista que vai implementar o programa da grande rapinagem com um acordo frouxo, por enquanto, dos outros partidos da direita. E tais partidos (incluindo da atual oposição) irão aderir na medida em que a rapinagem for aplicada. Mas tenho absoluta certeza de que a massa da população brasileira não aguenta mais suportar o que suportou”, pontuou.

A entrevista completa com a historiadora Virginia Fontes pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como avalia a situação do Brasil e em especial da presidente Dilma após aprovação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados?

Virgínia Fontes: Avalio ser uma situação gravíssima, vivemos efetivamente um golpe, embora não seja exatamente como se explica em alguns casos. Significa, fundamentalmente, uma intervenção de uma Câmara dos Deputados dominada por um grupo extremamente complicado, com processos nas costas e irritados uns com os outros, a avançar sobre o voto popular. Não tenho dúvidas disso. Tal processo não começa na votação do impeachment, mas em meados de março, quando ficam evidentes as formas seletivas de interferência tanto do judiciário como nas decisões do legislativo. Portanto, um momento gravíssimo.

Esse momento gravíssimo, a meu ver, não tem uma razão disparadora clara. Por que razão começa se a grande burguesia brasileira foi absolutamente contemplada ao longo dos governos Lula e Dilma – em seu segundo, ainda mais? Se não tem resposta imediata, tal questão não pode ficar obscurecida, porque os fatores disparadores imediatos são vários. Um deles é o temor de setores da grande burguesia de irem pra cadeia. E não posso me furtar de dizer que a palavra de ordem da Fiesp é a mais esquisita, ou explícita, segundo uma leitura freudiana: “não vamos pagar o pato” significa que o empresariado brasileiro não o fará, mas a população sim.

Tem algo muito estranho na origem do processo que deve nos deixar em alerta, pois a situação não está completamente clara. Parece que há tensões em setores dominantes. Como já disse antes, tensões entre o “clube do milhão” e o “clube do bilhão”, uma vez que as estruturas representativas do setor empresarial são muito mais voltadas ao primeiro do que ao pequeno grupo de grandes empresas bilionárias, constituídas desde o processo de privatizações da era FHC. E não está claro o que tudo isso significa.

A situação política e econômica do Brasil não está clara e é muito inquietante. Outro ponto importante de mencionar é que, na ausência de clareza das tensões internas entre setores burgueses, um elemento que se torna mais evidente é que a direção intelectual e moral – como diria Gramsci – do processo vem sendo conduzida por uma aliança entre os setores mais retrógrados da sociedade e alguns mais reacionários, que não são exatamente retrógrados no sentido de serem herdeiros de períodos anteriores, mas coligados a setores mais reacionários e à direita do cenário internacional e em especial à extrema-direita dos EUA. Isso vem sendo expresso através do papel de entidades associativas do tipo Instituto Liberal e Movimento Brasil pela Democracia, cujos dirigentes são formados em grupos e escolas próximos da extrema-direita norte-americana.

Portanto, uma situação complexa. Nem o disparador e nem os desdobramentos estão claros. Uma situação gravíssima e de golpe, em meu juízo.

Correio da Cidadania: Antes de entrarmos em outras questões da política brasileira, o que comenta do discurso de Dilma na ONU, que evitou o uso do termo golpe e foi criticada por diversos setores que apoiam a manutenção do seu mandato?

Virgínia Fontes: É preciso analisar a timidez, pra dizer o mínimo, quando levamos em conta que há dois anos a Dilma não fazia discursos políticos em âmbito internacional. Não sei o que forma sua estratégia discursiva, mas não fez discursos de 1º de maio ou intervenções mais pontuais em questões sociais gravíssimas etc. A meu ver, tem a ver com a ambiguidade na qual vive o governo dirigido por ela. Foi eleita com uma plataforma e no dia seguinte adotou outra. Não se apresenta como uma direção efetivamente política para a classe trabalhadora brasileira. Dilma procura se apresentar como pêndulo suspenso acima das classes sociais, a procurar coordenação entre elas, uma posição impossível de sustentar por alguém apoiado por alguma coisa que um dia se chamou Partido dos Trabalhadores.

Portanto, a ignorância da existência de classes sociais, a tentativa de fazer conciliação pelo alto e acatar exigências do capital aceitando uma “piora menor” aos setores populares geram a postura vista na ONU. Significa que não temos uma liderança expressa pela presidente Dilma, com convicção clara da situação brasileira.

Correio da Cidadania: Voltando ao plano interno, como viu e sentiu o “espetáculo” da votação do impeachment no domingo, 17 de abril? O que comenta da postura dos membros da casa legislativa?

Virgínia Fontes: É lamentável, desastroso e inadmissível o que aconteceu naquele dia. Na verdade, o dramático aconteceu pelo conjunto do processo que se desenha. Uma Câmara de Deputados sem nenhuma legitimidade, cujo presidente já deveria estar afastado há muito tempo de suas prerrogativas, faz, por uma espécie de vingança própria, um determinado encaminhamento que é uma afronta a qualquer processo democrático burguês, por mais limitado que seja. Afronta brutal!

A partir do momento em que tais personagens começam a afronta, uma parcela da grande burguesia brasileira, pra não dizer toda, embarca nela. Tal conjunto é constituído por um partido sem credibilidade, uma direção da Câmara sem credibilidade e uma série de deputados que devem uns aos outros, em prováveis esquemas de chantagem que deixam-nos ligados a situações no mínimo envergonhantes. Tal conjunto toma a iniciativa, recebe o apoio de quase toda a classe dominante e inicia um processo altamente perigoso para a população brasileira. Pra não falar do imenso apoio da grande mídia.

Acho que qualquer pessoa com o mínimo de dignidade humana se sente enojada, afrontada. Não é exatamente surpresa, mas até que ponto é possível ir o espetáculo da degradação da política? Talvez o caso mais exemplar seja a deputada que votou em nome do marido que no dia seguinte foi preso. E do Bolsonaro, uma afronta a qualquer democracia. Um deputado que declara voto em nome da defesa de procedimentos de tortura na ditadura. Em qualquer país, e olha que eu acompanho debates parlamentares de vários países, é inadmissível. Foi inaceitável o espetáculo, em seu todo.

O conjunto do processo de impeachment é o conjunto do processo de golpe. E mais do que sobre a presidente Dilma, é um golpe sobre os setores da população brasileira que consideram uma sociedade de iguais condição fundamental da existência humana. Isso que precisamos ter claro. Não sei se a presidente está de acordo com isso, acredito que não, ante os discursos que faz. Mas aquele golpe colocado é contra a classe trabalhadora, contra sua auto-organização e em especial contra todas as parcelas dessa classe que tentam se organizar de forma autônoma, independente e com clareza da luta que precisam levar.

Correio da Cidadania: Como avalia a postura do PMDB e alguns outros partidos outrora aliados na evolução da crise?

Virgínia Fontes: Aqui tem uma situação interessante, porque o partido assumiu uma posição central por conta de uma estrutura de chantagem clássica que perdurou da ditadura para o Estado de direito de uma limitada democracia no Brasil, após 1989. Limitada em boa medida em função do PMDB, mas não apenas. Também pelo funcionamento do DEM e PSDB. Se o PMDB assumiu lugar principal foi exatamente pelo fato de ser quem centraliza ou coordena as estruturas de chantagem no cenário político nacional. Assim, é capaz de trazer ou pelo menos bloquear o conjunto dos outros, trazendo boa parte dos partidos de aluguel e bloqueando os três partidos de fato da esquerda brasileira – PSOL, PSTU e PCB.

Portanto, a postura do PMDB, que há tempos domina o Estado, é a síntese do conjunto de partidos da burguesia. São mais de 20 e nenhum destes expressa nenhum setor direto da burguesia. As burguesias brasileiras, desde o primeiro governo Lula, adotaram para elas praticamente todos os partidos que estão na disputa eleitoral. Financia todos, divide entre eles os recursos e assim, em seus mais diferentes formatos, as burguesias passaram a ter em sua mão o espectro dos partidos, desde a esquerda à extrema direita do capital. Todo o espectro conforma o partido da burguesia. Em outros termos, o Partido da Ordem, termo de Marx retomado por Florestan Fernandes, é composto por uma quantidade enorme de partidos. E todos eles devem sua penetração às burguesias brasileiras, em termos de financiamento, acesso à mídia, programas e sobrevivência mais imediata.

Dentro disso, o PMDB é um daqueles que têm penetração e organização de escala nacional, e é síntese da podridão de uma política de tal tipo, herdada da estrutura ditatorial. Essa é uma situação complicada porque ocorreu em algum momento o que venho chamando de certo “paulistocentrismo”, isto é, uma oposição entre PSDB e PT muita clara em SP, mas não tanto assim pelo país, onde o papel de cada um deles é diferente.

Pra ficar claro, com exceção dos três partidos de esquerda, os demais são partidos da ordem burguesa, inclusive o PT, que faz a esquerda desse partido. Dentre os partidos que estão ali, nenhum deles têm claramente delimitado qual setor e fração representa das classes dominantes. Estas, investiram em todos eles, de maneira peculiar. O paulistocentrismo é uma avaliação um pouco irônica, porque a classe trabalhadora de São Paulo é forte, extremamente variada, rural e urbana, de escala enorme, mas tal conceito não se refere a ela. E de certa forma o PT adotou essa formula paulistocêntrica, criada na década de 40 na figura da Locomotivo do País, que por sua vez deveria seguir os desígnios ditados de São Paulo.

Entra no jogo o complicador da postura do PMDB e outros partidos. Embora o PSDB tenha veia fundamentalmente paulista e carioca, nunca conseguiu de fato uma distribuição nacional. PT e PMDB são os únicos que têm inserção, escala e abrangência nacionais. Ainda assim, ficamos encolhidos a um debate que opõe PSDB e PT em escala nacional. O problema dessa limitação é que só sobra o PMDB para mediá-la, pois abrange estados circunscritos de problemas de organização da política e da vida social que não podem ser resolvidos pelo PSDB e poderiam, mas não foram, ser enfrentados pelo PT.

O PMDB assume centralidade por diversas razões: a primeira é sua escala nacional. A segunda é que herda da ditadura as formas mais apequenadas da política: a negociação direta, caso a caso. Dessa herança, constitui uma parcela importante de sua liderança como algo diretamente chantagista, tanto com as classes dominantes como em relação aos setores populares.

Nessa circunstância, o que é o pior da nossa política do ponto de vista de herança histórica, o PMDB assume centralidade diante da impotência do PT em ser de fato um partido de esquerda e do PSDB de ser algo além de expressão regional de uma certa burguesia, enclausurada em São Paulo, Minas Gerais e um pedaço do Paraná, enquanto as burguesias brasileiras são mais amplas.

Portanto, estamos diante de um imenso desafio de compreensão, não simplesmente de uma resposta. Temos o desafio de entender a regionalização da grande burguesia, as estratégias das suas estruturas representativas e o fato de que seu conjunto tenha adotado todos os partidos ao longo dos anos.

Correio da Cidadania: O que pensa da postura da oposição após a vitoriosa votação pelo impeachment, por ela também apoiado?

Virgínia Fontes: Continuamos numa situação gravíssima e longe de amainar. O fato de que todos tenham aderido a uma aventura golpista e uma vez, também devido a isso, que estejam todos numa bola de neve com a qual não podem brincar, não significa que não estejam com medo.

Em alguns artigos escrevi, e continuo pensando assim, que a Operação Lava Jato e o medo de grandes empresários de serem presos são temores reais, inclusive de partidários do impeachment, porque as operações da PF atingiram apenas o PT até o momento. Por um lado, há um temor real do que pode acontecer, um movimento que fuja de seu controle, afinal, como dissemos, o disparador de tudo isso ainda é um tanto incógnito.

A chantagem, a meu ver, se antecipa ao medo. E no caso é o medo de ser preso. Respeito os argumentos da crise econômica, mas não me convencem que tenham sido as razões principais do processo. Creio que temos a conjunção de crise econômica e fratura do pacto social um pouco mais complexa, relacionada também ao cenário internacional.

A certa cautela da oposição nos primeiros momentos após a votação na Câmara se deve ao temor do escândalo em que se meteu, coisa que o mundo inteiro reconhece e ela sabe. O Brasil não é uma republiqueta, como dizem, mas uma das dez maiores economias do planeta. Ao se abrir aqui uma situação que possa inaugurar um cenário de tensão social permanente, a América Latina toda pode se incendiar.

Eles toparam a chantagem número 1, junto com um conjunto expressivo da grande burguesia brasileira, e ao mesmo tempo temem os desdobramentos. É absolutamente vergonhoso assistir, porque não há nenhum posicionamento que seja claramente político. Não há proposta, não há projeto. A única proposta é de rapina. Avançar na DRU, portanto, sobre os recursos da previdência, de tudo aquilo que a Constituição definiu como recursos públicos que não deverão financiar o capital. Há pelo menos 70 projetos de lei na Câmara e Senado de retirada de direitos do trabalhador.

Portanto, entram como aves de rapina no processo, de maneira avassaladora, a fim de retirar direitos, mas uma coisa retroage sobre a outra – a chantagem política feita pelo PMDB, admitida pelo PSDB, depois de este tentar se colocar como um ente limpo, quando nunca houve tentativa de limpeza alguma e os demais partidos são apenas de aluguel. Por isso, querem diminuir o número de partidos, o que visa excluir exatamente aqueles que não lhes pertencem. Nesse processo, tais partidos temem o que pode acontecer, mas agora não têm como brecar o movimento iniciado por eles próprios. Por isso é gravíssima nossa situação.

Correio da Cidadania: Acredita que Dilma tem chance de sobreviver ao processo no senado?

Virgínia Fontes: Sou historiadora, não sou futuróloga. Para mim, independentemente de  sobreviver ou não, a sinalização que ela tem dado é de fazer a política que eles estão determinando. O golpe em boa parte já foi dado. Eliminou a direção política do governo brasileiro a sua capacidade de liderança. Esse golpe já foi dado.

Subsequentemente, alguma possibilidade há de a Dilma voltar ao governo. Sempre há uma possibilidade alucinada qualquer de o Senado votar diferentemente da Câmara ou de ela voltar 180 dias depois. Isso não é impossível.

Ou se faz mobilização popular para enfrentar qualquer que seja o dirigente que saia desse processo, a fim de exigir respeito aos recursos públicos, o fim da rapinagem na estrutura política (totalmente coligada e dependente dos grandes capitais brasileiros e estrangeiros) e exigir e impor decência aos representantes ou vamos descer ladeira abaixo.

Correio da Cidadania: Assim, chegaria a ser irrelevante a continuidade do mandato de Dilma.

Virgínia Fontes: Ela pode continuar no mandato com o golpe já feito e completamente refém. Ela já era refém do que estava posto no início do mandato, por isso digo que tem alguma coisa opaca no disparador de todo o processo. Dilma foi eleita com uma plataforma na campanha e na semana seguinte à sua posse adotou uma política oposta. De quem ela adotou tal política? Dos grandes grupos brasileiros e estrangeiros que aqui atuam. Portanto, o tipo de enfrentamento que estamos assistindo não faria muito sentido.

Mas por que tal enfrentamento ocorre? Porque há uma disputa. A meu juízo temos duas disputas subterrâneas. Uma é sobre a continuidade da investigação da Polícia Federal para além do PT. E apesar da seletividade que a Polícia Federal e o Ministério Público já demonstraram, essa é uma ameaça latente e patente na situação brasileira. Ninguém sabe se Sérgio Moro continuará fazendo investigações sobre outros grupos. Mas a massa que foi para a rua contra a corrupção o fez apoiando um Sérgio Moro que não foi além.

Portanto, tem um problema aí e a Fiesp diz que ela não vai pagar o pato, o que significa que nenhum empresário será preso e o resto que pague o pato. Outro problema é a captura do programa com acordo da presidência e de uma grande parcela do PT desde o primeiro governo Lula.

Nesse momento aparece a questão: “se ela faz o programa deles, por que está acontecendo tudo isso”? Uma questão é a Polícia Federal. O PT jamais pôde controlá-la – e não porque não quisesse, mas porque não podia. Além disso, quem leu o Valor Econômico, O Globo, a Folha e o Estado de S. Paulo nos últimos dois meses sabe que as promessas, e eles falam todos os dias, são jogar baldes de água nas operações da Polícia Federal, estabelecer um grande cenário de pacificação nacional e diminuir o impacto das investigações de corrupção, tanto entre as empresas brasileiras quanto em algumas entidades do Estado, a exemplo da própria representação política. Esse é um dos elementos.

O segundo elemento é que um dos setores mais corrompidos do PMDB assume o enfrentamento: o setor do Eduardo Cunha. Essas duas circunstâncias capturaram o processo em um ponto em que não houve nenhum enfrentamento, até o Cardozo dizer que se tratava de um golpe. Mas não houve um enfrentamento ao golpe do ponto de vista partidário e da direção política do país.

Não há uma liderança no país, de modo que a burguesia quer prender o Lula e impedi-lo de falar, porque ele é uma liderança. Por mais que eu discorde do Lula e dos governos petistas, algo que sempre deixei bem claro, a situação atual é: uma parcela grande da burguesia associada a parlamentares completamente corroídos quer impedir que surja qualquer liderança com algum cheiro popular. Isso porque eles dispararam um processo que não terão como frear e ameaça abrir lutas sociais que eles não terão como controlar.

Correio da Cidadania: Dentro de todo esse jogo, que inclui o esfacelamento do lulismo como mediador dos conflitos de classes e interesses, como avalia a declaração de Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, a afirmar que o PT deve abdicar de se apresentar como liderança majoritária da esquerda brasileira?

Virgínia Fontes: Primeiro tenho um pouco de dúvida sobre a capacidade nacional de liderança do Haddad. Ele tem uma postura muito centrada em São Paulo. Apesar de ter sido ministro da Educação sua postura é muito centrada em São Paulo e, portanto, temos novamente a disputa PT-PSDB, que é muito característica de São Paulo. Em segundo lugar, a minha avaliação é um pouco diferente da dele.

O PT já não é uma liderança da esquerda brasileira há muito tempo. O PT é a liderança de uma esquerda voltada para o capital. O que é uma “esquerda voltada para o capital”? Esse é o título de um belo livro do Eurelino Coelho, que se chama “Uma esquerda para o capital”, em que ele mostra como a expansão do capitalismo brasileiro precisou trazer para si, ou seja, para dentro do setor burguês, as lideranças que emergiam entre os trabalhadores, adequando-os à gestão do capital e se apresentando como uma esquerda capaz de lidar com o capitalismo. Não era mais uma socialdemocracia que fazia tal papel, estava mais próximo de um social-liberalismo, mas era essa a postura.

É preciso qualificar melhor o que estamos chamando de esquerda e o Haddad não está qualificando. Está simplesmente considerando que o PT historicamente expressa a esquerda, mas que esquerda expressa o PT? O PT já expressou uma esquerda, mas desde quando ele parou de expressá-la, desde agora?

Provavelmente, como um partido à esquerda do capital o PT não perde seu papel e nele continuará. Certamente, não é mais o papel de atuar como liderança máxima, uma vez que ao longo dos seus períodos de governo perdeu a capacidade convocatória que lhe dava acesso fundamental de esquerda conveniente para o capital.

Mas não estamos assistindo a isso somente no Brasil; acontece no mundo inteiro. Os partidos oficiais que vêm de uma tradição, seja do socialismo, do trabalhismo ou de qualquer viés de esquerda e se colocaram para atuar como uma mão esquerda do capital, estão perdendo rapidamente credibilidade social e capacidade aglutinativa. Basta ver o caso do PSOE espanhol, do Partido Socialista Português, do Partido Socialista Francês e de outros tantos partidos que transigiram tanto tempo com o capital. Eles foram perdendo espaço, inclusive de atuação como mão esquerda do capital, e abriram espaço, desgraçadamente, para a ascensão de uma extrema-direita que vem calcada em valores que tais partidos da esquerda do capital perderam, que são os valores da negociação a qualquer custo com a dominação. Estamos assistindo no cenário internacional à ascensão de uma direita difusa, muito articulada e bastante truculenta, ao lado do crescimento de formas de expressão da rebeldia popular descrentes dos partidos.

E não precisamos ir muito longe. Temos o Podemos na Espanha e o Movimento “Nuit Debout” (“Noite Desperta”) na França, cujos participantes passam noites em pé na praça da República em Paris e em várias outras cidades francesas. São expressões da rebeldia popular com a clareza de que estão lutando pela classe trabalhadora e de recusa aos partidos. Essa é uma situação dramática porque nós precisamos de organização. Precisamos da junção desses movimentos sociais às formas de organização que ainda resistem nas classes trabalhadoras. A situação é muito inquietante, mas podemos remontar mais atrás ao Occupy Wall Street e outras formas anteriores, como a Geração à Rasca de Portugal, o Syriza na Grécia, entre tantas outras.

Vivemos no mundo uma situação muito peculiar. E no caso brasileiro, com a situação golpista, é ainda mais complexo. Sequer as regras burguesas de funcionamento tradicionais vêm sendo respeitadas. Por essas razões que a declaração do Haddad me pareceu pretensiosa, ao partir do pressuposto de que o PT liderava, até agora, a esquerda brasileira.

Correio da Cidadania: Apesar de toda a discussão e o quadro complicadíssimo, qual poderia ser a melhor saída para a crise em sua visão? E como imaginaria um “governo de transição” capitaneado pelo PMDB?

Virgínia Fontes: Como Gramsci, sou uma pessimista da razão e uma otimista da vontade. Vamos para os dois aspectos. Primeiro, o pessimismo da razão. Do ponto de vista de uma análise absolutamente fria do que vem acontecendo, estamos nos dirigindo para o pior. Estamos nos dirigindo para um governo capitaneado por um grupo chantagista que vai implementar o programa da grande rapinagem com um acordo frouxo, por enquanto, dos outros partidos da direita. E tais partidos irão aderir na medida em que a rapinagem for aplicada. O PSDB, por exemplo, está oscilando, esperando as eleições, mas quando a rapinagem for flagrante estará ao lado. Algumas das suas lideranças inclusive já o declararam. Do ponto de vista do pessimismo da razão, eu diria que vamos para uma situação muito difícil, na qual certamente teremos lutas duríssimas.

Antes de entrar no aspecto do otimismo da vontade vou introduzir outro elemento que o Gramsci não considera, que é a razão conflitual. Do ponto de vista dessa razão conflitual, tais grupos não têm apoio social para implementar o programa de rapinagem que querem e, portanto, terão de defrontar-se com lutas que não sabemos quais são. Não sabemos quem conduz, nem que posição ou partido e nem quais movimentos emergirão para tentar unificar os setores e grupos contrários à rapinagem. Mas sabemos que surgirão. Isso porque a sociedade brasileira é uma sociedade complexa, hoje altamente urbanizada e já mostrou que não quer perder direitos – e o que está proposto é uma devastação dos direitos da maioria da população brasileira.

Portanto, eu não tenho dúvidas de que o pessimismo que a direção principal do processo traz tem de ser temperado por essa razão conflitual. É a razão conflitual que me permite dizer, como Gramsci, que existe um otimismo da vontade. A população brasileira, após um experimento de democracia, ainda que mitigada, dificilmente aceitará uma ditadura levada adiante pelo pior que essa sociedade já produziu. Vamos enfrentar lutas poderosas e eu tenho confiança de que se não for de maneira instantânea, mas a curto ou médio prazo, estaremos aqui enfrentando situações nas quais a classe trabalhadora dirá claramente que é insuportável aceitar alguma coisa do tipo que se desenha.

Sou pessimista pelo encaminhamento das nossas direções partidárias altamente comprometidas, basta ver o que estão fazendo e que são rapinantes, oportunistas e sem nenhuma responsabilidade sobre o conjunto da população brasileira. Assim, com eles sou pessimista. Mas tenho absoluta certeza de que a massa da população brasileira não aguenta mais suportar o que suportou. E em boa parte suportou pelo PT porque o próprio PT dizia ser em seu nome. Agora não terá quem diga ser em seu nome, portanto, a razão conflitual tende a emergir. Ao emergir, temos chances de ir muito além do que já fomos até aqui. 



Escrito por Gabriel Brito, da Redação
http://correiocidadania.com.br

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Na edição 4939 do jornal BancáRio, a presidente do Sindicato, Adriana Nalesco, tenta convencer os bancários de que é preciso defender o governo Dilma

Na edição 4939 do jornal BancáRio, a presidente do Sindicato, Adriana Nalesco, tenta convencer os bancários de que é preciso defender o governo Dilma. Adriana argumenta que o projeto de governo de Temer fala em um "ajuste fiscal duro", em uma reforma da previdência com idade mínima para aposentadoria (65 anos para homens e 60 para mulheres), em flexibilização de direitos trabalhistas, com convenções coletivas valendo mais do que a CLT, e em privatizações. 

Temos total acordo que todas essas ameaças precisam ser combatidas. O que Adriana prefere não falar é que todos esses ataques já foram colocados na ordem do dia pelo atual Governo. Dilma já vem tentando implementar o ajuste fiscal e a nova reforma da previdência. A ideia de que os Acordos Coletivos se sobreponham ao que esta na CLT nasceu da CUT, proposta pelo Sindicato de Metalúrgicos do ABC ainda em 2011. E foi sorrateiramente embutida no chamado Programa de Proteção ao Emprego, que além de tudo ainda previa redução de salário. E as privatizações, disfarçadas de concessões, nunca pararam durante os governos do PT. Na Caixa e no BB, são feitas reestruturações com descomissionamentos e transferências compulsórias. E foi o atual Governo que publicou no Diário Oficial o nome da Caixa já como Caixa Econômica Federal S.A.

A disputa que está ocorrendo em Brasília é entre dois grupos que brigam pelo poder e que defendem o mesmo lado. Defendem o lucro dos banqueiros, das empreiteiras e grandes empresas. A crise econômica explicita que, enquanto há lucro ele é privado e aos trabalhadores cabem as migalhas, e quando a crise se instala o prejuízo é socializado e os trabalhadores são chamados a fazer ainda mais sacrifícios.

Qualquer que seja o desfecho deste processo, o governo que sair dele será ainda pior do que o atual. Se o impeachment passar e Temer assumir, o novo governo implantará as medidas que o atual já não consegue implementar, pelo seu desgaste profundo. Caso o governo Dilma sobreviva no Senado ela própria já anunciou que fará "um pacto para governabilidade no dia seguinte". 

É preciso organizar um movimento amplo de resistência, que culmine em uma greve geral capaz de impedir a retirada de nossos direitos, bloquear a nova reforma da previdência e derrotar o projeto de lei que libera as terceirizações. A crise econômica não vai se resolver ao fim de um processo de Impeachment, tenha ele o resultado que for.

Devemos seguir o exemplo dos trabalhadores franceses, que com greve geral e ocupações de ruas e locais de trabalho combatem as reformas trabalhista e previdenciária daquele governo. Não é coincidência que os 
ataques sejam os mesmos aqui e lá: a receita dos capitalistas para a crise é sempre a mesma no mundo inteiro - nossa luta também deve ser.

A direção do Sindicato e a Contraf/CUT não podem continuar a defender Dilma. É preciso lutar contra os pacotes de maldades de Dilma e de Temer, ao invés de empenhar qualquer apoio a esse governo.

sábado, 23 de abril de 2016

A crise vai se agravar


A crise econômica vivenciada pelo Brasil tende a se agravar, independente do resultado do processo de impeachment.

Caso Temer, Cunha e Aécio sejam os vencedores, as principais medidas de um novo governo serão:

- o fim da obrigatoriedade da aplicação de recursos orçamentários em Educação e Saúde, para garantir o superávit primário e o pagamento da pseudo dívida pública;

- a privatização do Ensino fundamental e médio, pois o superior já está; e da Saúde, já em curso no Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná etc.;

- a precarização das relações de trabalho, com o acordado sobrepondo-se ao legislado;

- a terceirização do emprego, com perdas para o FGTS, o INSS, as famílias e o consumo, com reflexos na própria produção;

- o fim da tímida recuperação do valor do salário mínimo e das aposentadorias;

- o aumento da idade de aposentadoria das mulheres para 65 anos e a redução dos benefícios para os aposentados, principalmente os mais frágeis na estrutura social;

- o término da obrigatoriedade de participação da Petrobras nas áreas de prospecção, com aumento significativo da presença das multinacionais na exploração de petróleo e prejuízos para a Petrobras;

- a privatização da Petrobras, da Caixa Econômica Federal e dos Correios,  além dos portos, aeroportos e rodovias, estes já em curso; e muitas outras mais.

Em suma, medidas que beneficiam o capital em detrimento da população e da soberania nacional, com claros prejuízos para os trabalhadores. Medidas semelhantes foram adotadas na Grécia e em outros países, sem qualquer melhora na economia, ao contrário, com aumento significativo da crise.

Em caso de vitória do governo, a grande maioria dessas medidas também seria adotada. Em um primeiro momento, entretanto, a Educação e a Saúde seriam minimamente preservadas, assim como a recuperação dos salários. A privatização da Petrobras, Caixa e Correios seriam a médio e longo prazo, ao que tudo indica.

É por isso que pesquisa realizada em final de março pelo Instituto Data Popular demonstra que 62% da população defenderam um ‘Estado vigoroso, que promova a igualdade social’. Segundo o instituto, são as classes C e D, que até agora ainda não se manifestaram sobre o impeachment. Diz parte do texto: “A pesquisa do Data Popular revelou que para 74,5% dos entrevistados, os políticos agem por interesses próprios e não estão comprometidos com a melhora da vida da população. Num outro questionamento, 91% disseram que o pior do Brasil neste momento não é a crise política, mas sim "não ver a luz no fim do túnel".

No fundo, entre os dois projetos em disputa não há diferenças significativas, apenas quanto a intensidade e velocidade da aplicação das medidas a adotar. Como o capitalismo vive uma crise internacional sem precedentes, essa velocidade e intensidade fazem a diferença para o capital.

Tanto isso é verdade, que o governo dos Estados Unidos não se posicionou contrário ao filme de terror proporcionado pela Câmara dos Deputados quando da votação do impeachment. Seu histórico discurso em defesa da democracia, que sempre camuflou a defesa dos interesses da burguesia, não foi proferido por qualquer representante daquele país. Os mesmos que condenam as “ditaduras” da Venezuela, Cuba, China, Síria etc., calaram-se diante dos votos por Deus, pela família e propriedade.

O mesmo aconteceu quando do impeachment do ex-presidente Lugo, do Paraguai; dos golpes no Haiti, no Egito, na Líbia, da tentativa de destituição do ex-presidente Hugo Chávez etc. Aqui, ao que tudo indica, Washington e as multinacionais estão empenhados no encerramento do atual governo, mesmo com o ataque às instituições democráticas burguesas, em mais uma de suas manobras para garantir a hegemonia do capital.

Em 2014 publicamos artigo intitulado ‘Cuidado, 2015 vem aí!’, que se mostrou acertado diante do agravamento da crise nacional e internacional. Agora também temos a convicção de que, saia quem sair vencedor, os direitos e conquistas dos trabalhadores serão os alvos da elite.

A única alternativa para barrar a ofensiva do capital é a organização, mobilização e luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos, visando novas conquistas

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”.

Afonso Costa

Jornalista

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A História acelera seus passos, mas quem dá a direção?


Felipe Coutinho* março 2016 

O Brasil vive dias turbulentos e faz parte de um mundo controlado pelo capital financeiro e em crise. São crises na ordem econômica, ambiental, humanitária, diplomática, além da barbárie das guerras. Povos são divididos pelo acirramento das diferenças religiosas, étnicas, culturais, da língua que se fala e da origem imigrante ou regional. Não percebem que são manipulados, jogados uns contra os outros, enquanto se disputa a nova partilha do poder político para atender a interesses econômicos particulares.

Quando as taxas de lucro médias diminuem, se a economia não cresce, enquanto as dívidas se acumulam, os recursos naturais ficam escassos e caros de se obter, quando novos assalariados baratos não são incorporados em número suficiente, é nesta conjuntura que a conciliação entre interesses contraditórios fica mais difícil. Nestes momentos já não é possível conciliar salários em crescimento, pleno emprego e direitos sociais com a concentração dos capitais. Frações entre os capitalistas, empreiteiros cartelizados, banqueiros oligopolistas e concessionários dos meios de comunicação, e de outros serviços públicos, disputam o Estado para obter maiores vantagens relativas. A balança entre a influência dos capitais de origem estrangeira e nacional no aparato de Estado se ajusta. A participação direta do Estado no capitalismo produtivo e financeiro muda à serviço de quem dá a nova direção. 

A corrupção, em seus aspectos legais e ilegais, é o resultado da busca pelo maior lucro possível na disputa entre empresários ou banqueiros. Não é a principal causa dos males daqueles que vivem do trabalho honesto e do salário, é o resultado sistêmico da organização econômica na qual muitos trabalham e poucos, cada vez menos, acumulam. Periodicamente a corrupção é descoberta, alguns agentes são punidos, políticos expurgados ou presos, são apenas os fusíveis que quando queimados preservam o funcionamento do sistema. Os meios e as motivações para promover a corrupção ficam intocados. A propriedade das empresas corruptoras e dos bancos que lavam mais branco são preservadas. A concentração do capital, a busca pelo lucro máximo e a tendência à formação de cartéis segue seu rumo. 

Os assalariados, os trabalhadores autônomos e os pequenos empresários estão assistindo à reedição do espetáculo do combate à corrupção no Brasil. Muitos são manipulados para uma espécie de catarse coletiva e falso moralista, ou para se solidarizar à vitimização de lideranças políticas. Os verdadeiros interesses da maioria da população ficam nublados diante da falsa polarização, na miséria da política brasileira. Cínicos declaram “Nunca houve tanta corrupção”, hipócritas retrucam “Nunca a corrupção foi tão combatida”. Aparatos jurídico-policiais e midiáticos cometem excessos, desde prisões preventivas até a delação, investigação e vazamento seletivos, violação da comunicação entre investigados e seus advogados, além dos prováveis grampos ilegais. Governa-se com a política econômica, antes condenada, do adversário derrotado. 

A direção do espetáculo está sob controle do capital internacional. Na agenda política a entrega do pré-sal às multinacionais, a privatização das estatais, a menor participação do Estado no setor financeiro, a contra reforma da previdência, a abertura das licitações públicas às multinacionais da construção civil, a prioridade ao pagamento dos juros da dívida pública, o fim da valorização real do salário mínimo, a desindustrialização, o fim dos programas nuclear e espacial brasileiros, os acordos de livre comércio com EUA e Europa, além do afastamento do Brasil em relação aos BRICS e à América Latina. Ainda na agenda, a legalização da terceirização nas atividades fins das empresas, a lei “antiterrorismo” para repressão aos movimentos sociais e a independência formal do Banco Central em relação aos governos eleitos, para legalizar sua subordinação aos banqueiros privados. Esta agenda pode ser imposta à atual presidenta, ou ser adotada por outro que se estabeleça, caso a maioria da população permaneça alienada em relação ao que está realmente em jogo. 

]Democracia é um conceito abstrato, mas simpático à maioria das pessoas. Nela cabe quase tudo, desde eleições periódicas na qual escolhemos entre os pré-selecionados dos banqueiros, até a participação direta na definição do orçamento público. A democracia real requer justiça econômica, e só será possível quando a democracia alcançar os locais de trabalho, os bairros, as escolas, os orçamentos públicos, os meios de comunicação, os processos legislativo e judicial. Democracia real é democracia cotidiana, desde a hora que acordamos até quando dormimos. Neste momento, de tanta desilusão e ameaças de retrocessos, alguém pode me criticar por estar “deslocado da realidade”. Respondo que a ilusão é acreditar que a conciliação dos interesses dos banqueiros internacionais, dos empreiteiros cartelizados e dos assalariados pode ser duradoura. Para se construir uma sociedade harmônica e digna é preciso eliminar as causas sistêmicas da corrupção, e aumentar a participação popular para qualificar a democracia. 

* Presidente da Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET) 
http://www.aepet.org.br/
https://felipecoutinho21.wordpress.com/